acorda!

por Caê Jansen

Naquela noite ao invés de ser acordado pelo usual mijo quente nas pernas, um gélido metal encostava em minha face, enquanto era bruscamente chacoalhado. Abri os olhos e o vi, no quarto levemente iluminado pela luz amarelada da sala, com sua arma em mãos e apontando para meu rosto.

– Acorda! E se você abrir a boca te mato. Agora levanta em silêncio e vai pra cozinha. – Disse ele, completamente transtornado.

Sentei na cama, completamente apavorado, não conseguia pensar em nada, só o que passava em minha cabeça era que ele tinha matado ela e eu era o próximo. Enquanto descia do beliche tentando fazer menos barulho possível, vi minhas irmãs e meu irmão dormindo.

“O que ele vai falar para os três amanhã? Será que ele vai mesmo me matar, cadê minha mãe?”. Era o que pensava enquanto saia pela sala em direção à cozinha.

Passamos pela sala em silêncio, ele me empurrou agressivamente para irmos mais rápido. Quando finalmente chegamos de frente à porta dos fundos da casa.

— Eu vou para o quintal, você vai trancar a porta e voltar para a cama — disse ele — Se não fizer isso, você e sua mãe vão morrer. Acenei que sim com a cabeça e ele saiu para o quintal dos fundos com sua arma em punho.

Meu corpo tremia muito e me perdia em meus pensamentos aflito e sem saber o que fazer.

“Se eu trancar a porta, e ele ficar trancado para fora de casa? Não tem como ele passar para o quintal da frente, certeza que aí sim ele vai me matar. Ou será que ele esta fazendo isso pra usar a desculpa de que eu o tranquei do lado de fora de casa, aí ele vai ter um motivo para mandar minha mãe me deixar com minha avó. Ele sempre coloca a culpa de tudo em mim, por que agora vai ser diferente? Melhor esperar ele voltar com a porta aberta.”

Fiquei parado, estático, encarando a porta aberta, esperando ele voltar. Estava em pânico, o terror daquela situação só não era pior do que ver minha mãe apanhando e não ter como reagir ou impedi-lo. Aquilo doía mais que qualquer soco, tapa, ou humilhação que sofri.

Enquanto estava com meus pés descalços no chão frio, esperando o retorno de meu algoz, para aí sim poder trancar a porta e voltar pra cama, levo um forte empurrão pelas costas e ele começa a falar enfurecido.

— Seu filho da puta, eu mandei você trancar a merda da porta! Eu devia te matar seu merdinha, veadinho — seu tom de voz era alto, agressivo e ameaçador.

— Desculpa, eu, eu… Achei que você iria ficar trancado para fora, não queria te deixar lá — implorei tentando controlar para que o pânico não tomasse conta de mim. Sabia que se eu chorasse as coisas piorariam.

Ele me olhou furioso, me deu um tapa na cabeça enquanto eu finalmente começava a trancar a porta. Então ele me empurrou mais uma vez, e trancou a porta.

— Se você contar isso pra alguém eu te mato e mato sua mãe também — e me empurrando completou: — agora vai pra cama e fica quieto. E não se esquece o que eu vou fazer se você abrir o bico. Vai dormir moleque.

Segui suas ordens, voltei para o beliche, subi as escadas em silêncio e desabei em lágrimas. Chorei muito, porém silenciosamente, até que finalmente adormeci completamente.

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