agora vai

por Ana de Oliveira

Ontem, ele entrou naquela sala como se nada estivesse acontecendo. Radiante e serelepe, como se suas primeiras palavras não fossem ser inúteis. Olhou pra mim e mesmo assim não tirou o sorriso da cara.

“Lá vem” falei, revirando os olhos. Ele ia fazer de novo. Esse papo de tentar salvar o dia com uma ideia meio bosta.

Estava com mil coisas debaixo dos braços, aparentemente satisfeito por ter tantas provas de que, daquela vez, tudo daria certo. Me senti até mal por saber que ele se esforçou tanto para saber de algo tão óbvio: mas é claro que não ia dar certo. Ele bem sabe. Eu nunca deixei de avisá-lo, mesmo que isso caísse na redundância. Sempre estive lá, repetindo a mesma coisa; e, diferente de um disco quebrado, eu sempre arranjei outros tons de conversa para convencê-lo do óbvio. Já deu a hora, não tem mais nada que possamos fazer. Talvez eu tenha me esquecido de avisá-lo – outra coisa óbvia –, mas nem tudo na vida vai ter êxito. Existem coisas que precisamos abortar da nossa vida, porque extrapola o limite, e depois disso não somos mais ninguém.

Vamos evitar isso. Eu ainda quero ser alguém.

Depois de arrumar toda uma cerimônia, depois de deixar todos expectantes, ele abriu o bico e começou a explicar sua ideia. Até que me convenceu. Realmente, é outro ponto de vista sob uma situação um tanto desastrosa. Eu nunca pensaria numa hipótese dessas, faz sentido. Seria até uma solução, se não fosse só mais um jeito de cair no mesmo buraco. Não que eu seja pessimista. Mas é que eu estou vendo que a nova ideia dele vai desembocar no mesmo lugar que as outras 395 ideias acabaram. Existe hora para desistir, e deixar a vida levar o que restou. E é preciso, mais do que nunca, aceitar isso.
Só que mesmo assim ele insistiu, e convenceu todo mundo na sala, menos eu, de que suas certezas eram o suficiente. Alguns seguraram os aplausos, porque sabem que é melhor deixar pro final. Parecia que ele havia descoberto a cura do câncer. Parecia que ele era a própria cura. Por um momento, me esqueci do erro que ele estava cometendo, das minhas palavras caindo no esquecimento.

Até que nossos olhares se chocaram, e eu pude balançar negativamente a cabeça para ele. Revirei os olhos, também. Eu estava fazendo qualquer coisa para que ele deixasse de se agarrar à uma miserável hipótese, e começasse a encarar a realidade.

Mesmo assim continuou. Otimista e iludido. Sempre colocando a expressão “agora vai dar certo” no meio da conversa. Nós poderíamos estar ricos se ganhássemos um real para cada vez que ele repetisse “agora vai dar certo”. Pelo menos ia compensar toda a sua tolice; digo, insistência. Qual é, ele sabe que existe uma visível diferença entre ser tolo e insistente. É o que dizem: você só erra uma vez. Na segunda, já é burrice. Digo, escolha. Certas coisas não merecem nossa insistência. Eu sei que ele não consegue ver isso tão claramente, e é justamente por isso que eu existo. Pra dizer: sai dessa.

Ele continuou explicando, exaltando, e comemorando sua nova – mas não útil – descoberta. Eu fiquei na dúvida entre me irritar e abraçá-lo. Com certeza precisa mais de ajuda do que eu pensei. Continuei balançando a cabeça, em negativo, rezando para que ele entendesse que precisa me escutar. Agora mais do que nunca. Perdi as contas de quantas vezes o vi cair. Não tem como ficar só assistindo o caos possuí-lo. Ou melhor, possuir-nos. Então, eu explodi.

“MEU DEUS! QUANTAS VEZES VOCÊ PRECISA ERRAR PRA VER QUE NÃO VAI DAR CERTO?” berrei.

A pergunta era nova, e absurdamente válida. Todos os sentidos ficaram atônitos, e uma nuvem de fofoca se formou; eu só escutei os murmúrios. Ele, o coração, recuou, com cara de choro. Quebrou-se mais uma vez na minha frente; não porque eu havia gritado – até porque ele perdoa coisa muito pior –, mas sim porque sabia que era verdade. Eu o atingi com um balde de realidade, afoguei todas as suas soluções milagrosas. Nocauteei suas esperanças. Ele virou, e catou tudo; recolheu toda a festa do “agora vai”, sem falar nada, apenas cabisbaixo. Todo mundo me olhou, me culpando e me condenando em silêncio. Tudo isso porque quando ele se quebra, o corpo todo adoece e só resta eu, a consciência, em pé para contar história.

Ele já até conhece os procedimentos. Pegará o elevador, com destino ao subsolo. Depois de se enfaixar todo, se trancará lá até ter certeza de estar inteiro novamente. Enquanto isso, todos na sala recolhem suas coisas, ainda com maus olhares direcionados a mim. Eu fiz o mesmo, metodicamente, sem ousar em levantar a cabeça. Guardando coisa por coisa, pensando no quanto eles estavam errados. Porque no final das contas, quem alerta e impede que ele caia novamente no precipício sou eu. É que o meu trabalho é duro, e não pode ser feito com sucesso se passarmos manteiga pra tudo ficar melhor. É preciso entender que a realidade a gente encara de frente, como se não tivesse medo.
Saio da sala interrogativa, extremamente curiosa. Quantas vezes é preciso dar com a cara na parede para ver que ela é puro concreto, e que não somos um ser mágico com o poder atravessá-la?

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