reencontro

por Marcia Dantas

Sempre quis saber o que era ter esperança quando o coração esquece o significado dessa palavra.

Quando Silvia partiu, pensei que era o fim definitivo. Que nunca voltaria a ouvir sua voz ou sentir sua presença perto de mim. Mas essa tristeza se dissipou quando ela disse
meu nome mais uma vez naquela tarde:

— Leila!

Meu coração disparou quando pude confirmar que ela quem estava mesmo ali.

— Você voltou, Sílvia.

As mãos dela seguravam as minhas e meu coração estava disparado. Pela primeira vez desde que nos reencontramos tive a certeza de que nossas mentes estavam na mesma sintonia. Muito tinha se passado, mas isso era algo imutável entre nós.

— Eu não vou a lugar nenhum — ela afirmou num sussurro, e seus dedos fizeram uma pressão ligeiramente maior em minhas mãos. — Não vou mais fugir.

Apertei os lábios, suspirando fundo e me alegrando internamente por aquela afirmação: era tudo o que queria saber, tudo o que precisava que Sílvia me dissesse. Porque eu só poderia dar aquele passo se ela estivesse efetivamente ao meu lado.

— Não estava planejando que isso acontecesse — eu disse, a voz escapando juntamente com a respiração, meus dentes formando um tímido sorriso.

Sílvia continuou segurando minhas mãos e percebi que ela sentiu o anel que estava em meu dedo anelar. Então ela me soltou e eu sabia que estava ali novamente a hesitação que havia nos afastado meses antes.

— João Carlos…?

A voz dela pronunciou delicadamente o nome e eu soube que aquilo significava que Sílvia temia minha resposta. Tratei então de tatear meu dedo até localizar aquele anel e retirá-lo de uma vez por todas. Eu não deixaria aquela barreira entre nós, não naquele momento em que as certezas começavam a dispersar os temores e que os sentimentos que há tanto carregávamos conosco finalmente se faziam tão claros que já não tínhamos como esconder.

— Ele disse adeus há algum tempo — procurei a mão dela com a minha, deixando na palma meio aberta o último símbolo de um relacionamento que já tinha acabado muito antes daquele reencontro. — Antes que eu dissesse que nós nunca daríamos certo, ele já sabia. Não tinha como negar, assim como…

Minhas palavras ficaram pelo meio do caminho, como se tivessem se acovardado. Talvez fosse o medo de dizer algo que estragasse aquele momento tão esperado. Ela sentiu alguma coisa, sei disso. Quando ela voltou a segurar as mãos, soube que ela tinha ouvido o que eu não conseguira dizer.

— Eu nunca consegui negar o que sinto por você, Leila.

Apertei meus lábios, desejando que Sílvia continuasse a falar. Tinha quase certeza que ela conseguiria colocar todo aquele turbilhão de coisas entre nós em frases coerentes. Eu não me via capaz de tal feito.

— E o que você sente?

— Você sabe…

Sim, eu sabia, e não era necessário que eu tivesse a visão para saber o que se passava pelo rosto dela — algo que não conhecia, pois ficara cega muito antes de nos conhecermos.

— Mas eu queria ouvir de você.

Meu pedido deixou o ar entre nós mais denso, como se o mundo todo pudesse se concentrar naquele preciso segundo em que nossas mãos estavam unidas e nossas mentes estabeleciam algum tipo de comunicação codificada, a qual apenas nós conseguíamos decifrar.

Contrariando minha expectativa, nada foi dito por Sílvia. Mas ela trouxe uma de minhas mãos para perto de seu rosto e pude sentir que seus lábios beijavam levemente a ponta dos meus dedos. Fechei os olhos, deixando que aquela sensação me invadisse por completo. Então, quando ela afastou os lábios da minha mão, deixei que os dedos tocassem levemente a face, sentindo a textura macia da pele dela e torcendo para que ela não recuasse diante do contato.

Ela não se afastou e só pude agradecer mentalmente.

Antes que eu pudesse me dar conta, o rosto dela já estava apoiado sobre minha mão e eu acariciava-lhe a face com o dedão. Sílvia parecia imóvel, mas sua respiração pesada denunciava que ela estava apenas apreciando aquele contato e que, como eu, desejava que não acabasse.

— Esperei todos os dias que você voltasse, Sílvia. E prometi a mim mesma que dessa vez as coisas seriam diferentes.

Quando ela disse que tinha aceitado emprego em outra cidade, podia jurar que meu coração se partiria em duas partes. Em um momento eu tinha percebido que estava completamente apaixonada pela minha melhor amiga, mesmo que estivesse há dois anos namorando sério com aquele que até então acreditava amar e, no seguinte, tudo o que pude ouvir foi o barulho do motor do ônibus que acelerava e a levava para longe de mim.
Então a campainha tocou, a voz dela alcançou os meus ouvidos e tudo o que eu conseguia pensar era que a vida tinha me dado uma segunda chance, a qual eu não iria desperdiçar.

— Nunca ia conseguir ficar longe de você, Leila.

Minhas mãos estavam em seu rosto e ela segurava-me pela cintura. Estávamos tão perto que eu conseguia sentir sua respiração. O perfume dela invadia as minhas narinas, aquele mesmo adocicado que conhecia tão bem e que me inebriava todas as vezes.
Trouxe seu rosto para perto do meu e os lábios dela tocaram de leve as minhas pálpebras e então a face direita, a esquerda… até que tomaram minha boca. Um gemido escapou de mim quando me percebi zonza, saboreando o beijo dela, como tantas vezes tinha desejado.

Aquele beijo podia durar para sempre que nenhuma de nós perderia o fôlego.

Separamos nossos lábios com certo protesto, mas sem nos afastarmos de tudo. Não era meu desejo e sabia que ela também não queria a distância. Muitas coisas já tinham se colocado entre a gente e tudo o que queríamos era estarmos juntas como naquele momento.

Ela me envolveu em seu abraço e consegui ouvir as batidas de seu coração. Era como se ele se comunicasse com o meu, dizendo aquilo que era inegável: o nosso amor não precisava ser visto, pois podia ser sentido de todas as outras formas possíveis.

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