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por David Plassa

São Paulo, 03 de março de 2116.

Chegou ao ponto de qualquer “desfavorecido” ser referência em alguma área da porra toda. E eles contavam por meio de uma quase escrita pouco imaginativa, sem profundidade ou análise especulativa, como fizeram para chegar lá. Das dificuldades, superações, mentores, tombos — sempre acompanhados de uma grande força propulsora chamada “pensamento positivo” ou “riqueza”.

Você poderia estar sendo enrabado à força por três detentos com HIV na cela de uma cadeia num país tropical esquecido, mas (mas!?) sua próstata pode ser estimulada e um belo orgasmo brotar como uma flor das suas pregas. Claro que o pensamento positivo evitaria que você caísse em uma situação semelhante. Não existiam injustiças.

Era uma classe ordinária querendo mais, ensinada por outra classe “supraordinária” que mantinha o mesmo ponto de partida para todos. Inclusive para camponeses indianos que se suicidavam diariamente por não terem o que dar de comer aos filhos.

Nessa época tão incompreendida como qualquer outra na trajetória humana de guerra e fornicação, meu avô se masturbava com vídeos recebidos no celular. Todos conectados ao avanço massageador da pornografia. O acordo matrimonial entre machos e fêmeas para perpetuação da espécie ganhava mais um aliado a fim de evitar que qualquer macaquinho ganancioso saísse trepando com quem quer que fosse.

Uma motivação para que adolescentes, funcionários, aspirantes e homens do congresso dessem duro em suas respectivas áreas. Pois o tédio era crime e o fracasso não tinha perdão. Caso você não fizesse dele um relato e vendesse para qualquer desorientado disponível.

Meu avô se masturbava para as filhas de camponeses indianos desesperados que, na ausência do pai, migravam para as cidades e eram plugadas ao telemarketing, onde realmente conseguiam completar a renda familiar atuando no promissor gênero amateur da indústria pornô.

Meu avô se masturbava enquanto a consciência social dele o questionava onde deveria estar dali a cinco, dez, doze anos e meio?

Ele queria ser rei, rockstar, queria o Nobel. E quando tivesse esquecido dos pais e abandonado os filhos, acolheria todas as filhas indianas em um harém particular para orbitarem dia e noite aquele ego vacilante.

Até que fosse consumido pela total falta de amplitude de uma existência rasa e material.

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