não é bem assim, meu bem

por Ana de Oliveira

Eu costumava ser entusiasta. Você colava a bunda na cadeira e eu não via problema algum. Que mal tinha segurar todas as pontas da corda? Eu fazia pouco caso do seu pouco caso. Achava até lindo. Um dia você me agradeceria e faria um discurso sobre como isso salvara nossa relação. Eu havia lido muito sobre isso, como um lado apenas poderia agir pelos dois. Li que algumas pessoas esqueceram o amor próprio no bolso, fingindo que o relacionamento não é uma troca e que poderiam se contentarem com apenas a simulação de uma retribuição.

Confesso que de começo isso seria até heroico. Não é muito bravo salvar uma relação com apenas a boa vontade? Não é digno de aplausos? Eu aplaudiria. Mas só se não fosse eu ali, sendo iludida mais uma vez, admirando sua figura inerte grudada no computador. Não me entenda mal. Eu ainda lutaria por nós dois; ainda sustentaria todas as minhas promessas. Mas é que você nem demonstra sinal de vida diante disso. E ficou bem claro para nós de que deveríamos fazer tudo aquilo que precisássemos. Só que não sei onde estava escrito que eu precisava fazer milagres. Me mostre onde combinamos isso, porque não consigo entender. Se tudo que precisamos é de algo beirando ao impossível, então…

Você me olha com aquela cara de tanto faz e me dá um beijo, esperando que eu me iluda com o pequeno carinho. Já os seus olhos… eles pedem para que eu não acredite em sua boca, porque ela não sabe mesmo o que diz. Realmente, não sabe.

Tente me entender. É que não é bem assim, meu bem.

Eu não sou nenhuma mulher maravilha, não tenho essa força quase subumana que você pensa que tenho. Não sou corajosa tal qual as amazonas que você vê na televisão nos finais de semana. Muito menos uma supergirl que vai fazer de tudo para salvar o mundo. E, por último, não sou suicida emocional. Eu sou fraca, meu amor. Fraca, mesmo. Que fique claro. Fique claro, para que você não me pergunte porque eu não atendo suas ligações logo no primeiro toque. Que as pequenas esperas, que lhe têm obrigado a exercitar sua paciência, são fruto da minha hesitação.

E não, isso não é coisa de mulher. Isso é coisa de alguém que ao mesmo tempo que te ama, se ama também. E que não está sabendo conciliar esses dois sentimentos tão fortes. Eu ainda não sei onde termina meu amor por você e onde começa o meu próprio. Para mim, esse limite tá borrado. O certo e o errado me parecem tão um só. Tão juntos e únicos.

Entretanto, decidi que não vou esperar para sempre. Porque eu não sou aquelas personagens de cinema de comédia romântica que veem solução em tudo. Não posso me permitir ser tão pouco de mim só porque isso não te é favorável. Acho que isso é um problema seu. Ver que eu também tenho capacidade de decidir o que quero para mim, mesmo depois de me embriagar de hesitação. Embora eu tome muitos cuidados antes de me pôr decidida para algo, ainda tenho aquela pequena vontade de ser livre. E não falo de solteirice não, meu amigo. Eu falo de poder ser livre sabendo que não preciso ser nada além do que eu. Sabendo que eu não preciso ser você ao mesmo tempo que sou eu mesma. Sabendo que não tenho que sustentar o lado que você insiste em afundar. E sabendo que tudo o que eu estava fazendo não passava de um plano para não me afogar, o que seria inevitável. Eu estava errando feio com nós dois. Estava sendo duas por nós. Duas em uma por nós.

E não é bem assim, meu bem. Não é assim que funciona.

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