uma brisa

por Pedro Almeida

Era fogo e ardia nos desejos que nunca soube que teve, nos sonhos aos quais nunca deu à luz e no passado que ficou como nódoa.
Trazia a garganta em brasa, calor nos olhos que a enxergavam e julgavam com um coração pesado, com um coração cruel.
Não tinha mais nada pra esconder, tudo queimava, todo mundo via.
E como lenha, ele veio, fazendo arder mais ainda nela o fato de que, se não tinha saída, então que ela ali ficasse; e jogou tudo porque girando, como ele, tinha essa vontade de querer mudar, tinha a letargia que ia morrer no movimento dele, acariciada por ele, empurrada por ele abismo abaixo.
E ele levava tudo, levava a roupa suja do cesto e a roupa limpa do varal, deixava o cabelo em pé, levantava o vestido e a deixava nua — e que assim fosse, não tinha mais nada pra esconder: era um grande vazio.
Por mais que quisesse, não enxergava o que acontecia, não sabia de onde vinha ou pra onde ia, mas, sentindo os efeitos e a energia, respirou a força, o ímpeto dele que faltava no peito dela.
Bateu na perfeição que não a deixava andar se não fosse com maestria, nas imposições dela que ela não conseguia suportar sem deixar de viver, ele gritando, gritava alto, gritava tão alto que uivava pra ela brigando com a vontade de fazer só certo que gritou que faria fosse o que fosse, não ligava mais.
Ventava frio e ventava muito e, ela, que sempre ficava roxa, deixou levar tudo, até o vazio, e que do vazio se alimentasse, e ventava mais — ventava demais, e ele se alimentava do vazio dela pra que ela pudesse ser um vazio novo.
Ele foi generoso, como um sorriso cheio de amor desinteressado; apagou o fogo, apanhou os gritos, a raiva, a inércia e a tristeza que pesavam tanto no ser que ela poderia ser que ela acabava por não ser nada enquanto a vida passava.
Ele acalmou o tempo, deixou no ar silêncio e leveza.
Ficou ela nova, toda nua, pra ela ver.
Ficaram todas as possibilidades do que isso tudo poderia ser.

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