quando eu quase morri

por Ana de Oliveira

Meu amigo,

Não consigo lembrar de palavras melhores para dizer o que aconteceu. Em algum momento, me senti perdido dentro de mim mesmo, e não pude fazer nada a não ser acenar que sim com a cabeça, confirmando que aquilo estava, de fato, acontecendo. No parapeito da minha janela, meus pés pousavam, enquanto a vertigem chegava de mansinho; tenho medo de altura — e mais ainda de cair.

Por alguma insanidade, pensei um pouco antes de concretizar o que eu julgava ser minha única opção. Larguei o frio da janela e a fechei, na tentativa de me sentir aquecido pelo menos nos meus últimos minutos. O calor do meu quarto fez com que meus pensamentos se concebessem mais rapidamente, e de repente meu falecer já não era tanto. Contatei, através do celular, para minha amiga de longa data, a Madu. Ela mesma, caro amigo.

Depois de um cumprimento morno, comecei de fato a conversa confessando que gostaria de que tivesse um rio à minha frente. Porque eu não pensaria duas vezes antes de pular. E, como você sabe, meu caro, eu não sei nadar. Desejei sentir o sufoco e a frustração em respirar com facilidade, desejei que algo me puxasse rio adentro. Ou melhor, que fosse uma correnteza. Me levasse para onde ela quisesse, eu ao menos iria contestar.

Para a minha surpresa, ela desejou o mesmo. Perguntei-me se por acaso passava por situação parecida, e, se fosse verdade, eu saberia. Ela sempre correu até mim quando sentiu-se ferida, e, por força do hábito, passei a carregar esparadrapos e palavras gentis no meu bolso. Então continuou dizendo que não se sentia tão bem mais, e que não adiantava mais correr, pois todos os lados pareciam cercá-la. Ficamos naquela compreensão mútua, numa situação semelhante a alcoólicos anônimos, compartilhando nossos demônios.

Até que ela percebeu a veemência com que eu pedia aos céus para desaparecer. Era muito real e não poderia ser dito da boca pra fora. Era muito enfático para ser uma medíocre analogia. E me perguntou: você não quer morrer agora, quer? Sinceramente, amigo, disse que sim. Tentei de tudo para seguir meu lema, mas eu havia chegado num ponto em que isso me pareceu inviável. Assim como ela havia confessado, todos os lados pareciam me cercar, e a sensação de sufoco apertava-me a garganta.
“Vamos viver assim até quando?” ela me perguntou, mais uma vez tomada pela ciência, tentadoramente boa, de que não era a única nesse barco.

“Até não viver, Madu.”

E aí, ela soltou todo o seu desespero confesso. Não dava para viver sem mim. Conhecia como era a sensação de não sentir-se a salvo em lugar nenhum, conhecia a dor, e só eu sabia que sim. Do que precisávamos?

Eu precisava de paz, meu amigo. Ainda preciso. Mas antes queria terminar meus projetos começados. Seria ridículo sair correndo para algum lugar muito melhor que a Terra deixando as razões da minha existência para trás. Tudo que eu lutei tanto para conseguir. E de repente consigo, e dane-se? Não, dane-se nada.

Entretanto devo dizer que a tentação era muito grande. Mas tinha a Nina – ainda tem. Pensei em deixar uma carta, como essa que escrevo, me parecia certo. Perguntei se deveria avisar exatamente minha hora de partir à Madu. Ela pareceu incrédula e não queria realizar que eu estava mesmo oferecendo esse tipo de aviso.

“Você me ama?” ela indagou.

Que pergunta idiota. Claro, eu te amo. Diante disso, e da propensão de ela a fazer o mesmo que eu pretendia, pedi para que não o fizesse. “Não se mata, tá” pontuei, antes de dizer que gostaria de pedir desculpas à Nina. Ela certamente não merecia isso. Não merecia que eu entrasse na vida dela do nada para sair dela também do nada. Depois de ter feito uma bagunça e tanto. Meu amigo, eu baguncei a vida daquela garota como jamais pensei que fosse o fazer. Mas ela é incrível, sabe? Não consegui dizer não à tentação de ser o amor dela. Eu quis, eu fiz, eu fui — e ainda sou.

Não faria sentido deixá-la naquele momento. Todavia, pior ainda era achar que eu possuía forças para continuar. O único esforço que ainda havia em mim estava guardado para pular da janela. Apenas. E ainda assim não teria garantia de morte, porque a altura era relativamente baixa. Mas pelo menos me sentiria vivo mais do que poderia sentir sentado naquela cama, falando da minha vida ferrada com a Madu; que por falar nela, disse que não enxergava a vida dela sem mim, seu irmãozinho mais velho. Como poderia viver? Certamente melhor do que eu, Madu.

Passei horas convencendo-a de que eu não pertencia mais a este mundo, e que meu lugar era outro. No desespero, naquela voz quase irreconhecível, ela começou a me implorar, com total ciência do que estava fazendo. Disse que estava de joelhos e me senti mal. Porque eu não queria ninguém implorando minha existência, ninguém sofrendo. Pena que o sofrimento era inevitável.

Em um determinado momento, cheguei a conferir minha janela, para ver se ainda sentia aquela vontade infinita de pular dali. Mas, conforme as palavras de Madu foram chegando aos meus sentidos, algo aconteceu com aquela janela, já não mais tão convidativa. Não sei o quê, mas eu não quis nada além de sentar e me obrigar a ouvir o choro de Madu e pedir que ela parasse. Eu não queria ouvir nenhuma lágrima sua. Porque a partir daquele momento, a desistência temporária havia chegado com uma cara boa. E me convenceu a repousar na minha cama quente.

Não quero imaginar o que você vai dizer, meu amigo. Porque sei que chegaria muito perto de acertar. E, olha só, já estou imaginando. Você me repreenderia. Diria que não tenho culpa nem da metade das mazelas que acontecem na minha e na vida da Nina. Mas é que aquela bomba lá, cogitar o pior, me quebrou todo. Eu não queria ter que me afastar da garota que eu gosto só porque a mãe dela fez um inferno na Terra. Só que, dentre todas as outras opções, naquele meu mais novo momento de loucura, isso parecia certo.

Obrigado por sempre ter as certas palavras na boca, caro amigo. Hoje eu as encho de razão. Não tenho culpa de tudo, e, ainda que o medo tome conta de mim, precisarei viver. Precisarei terminar tudo que comecei, fazer Nina feliz, e ser o amparo de Madu. Se eu quis morrer por falta de vida, preciso começar uma para que isso não mais aconteça. E não há nada que eu deseje mais do que estar aqui, na Terra, cumprindo minhas tarefas. Inclusive, terminando esta carta, e alongando ao máximo nossa correspondência.

Ainda chocado com a gravidade de minha fraqueza, eu.

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