diário

por David Plassa

Hoje tive um dia difícil. Me dei conta do absurdo em que vivo.

Às 8h45 o despertador em meu celular dispara, coloco no “soneca” e acordo desesperado 15 minutos depois. Me desvencilho da roupa de dormir em meu corpo e entro debaixo do chuveiro. Lavo a cabeça, ensaboo o corpo, escovo os dentes, tudo ao mesmo tempo. Penso em minha folga. Folga. Desligo o chuveiro, me enxugo, me visto, ensaco a marmita, tomo meu antidepressivo, me despeço da minha esposa, dos gatos, chamo o elevador. Saio com a sensação de que esqueço de algo. É assim todos os dias. Desço com o elevador até o térreo, saio por uma porta, saio por um portão, corro atrás de um ônibus, ele para, eu entro. Penso que estou sem o bilhete, mas ali está o bilhete. Passo a catraca, sento, dou o sinal. Apenas um ponto até outro ponto para pegar outro ônibus, que parece já estar lá, mas não, é outro da mesma cor. Atravesso com o farol fechado, xingam a minha mãe. Sento, espero. O segundo ônibus chega lotado. Me empurram, me ignoram, me olham feio. Sento, abro o livro, leio, fecho o livro, dou o sinal, desço. Ando dois quarteirões até a livraria. Porta aberta, bom dia, bom dia, subo as escadas que dão na cozinha. Bato o ponto, tomo café, ou vice-versa. Ponho o crachá, vou para a frente da loja, ligo o computador, atendo o telefone, passo cliente no caixa, empilho livros, devolvo alguns para estante, atendo o telefone, procuro títulos no sistema, abro encomendas, volto para a cozinha, tomo café. É assim até às 14h, meu horário de almoço. Bato o ponto, esquento a marmita, coloco no prato, como, lavo a louça, tomo café, sento, abro o livro, leio, fecho o livro, bato o ponto, volto pra loja. O relógio demora a passar. Você quer fumar, mas não pode. Você quer fumar, mas não pode. Não pode porque faz mal, dá peso na consciência, cheiro na roupa, azar nos desejos. Você não pode ficar parado. Tem que vender-vender. A quanto está da meta? Você não pode ficar parado mesmo quando não tem o que fazer. Anda pela loja, dou a volta em mesas, mexo-remexo em produtos, desarrumo e arrumo mostruários. Ainda faltam cinco minutos para ainda. Às 19h bato o ponto pela última vez no dia. Esqueço o pote da marmita, até amanhã, até amanhã, ando até o ponto de ônibus, sinto-me vazio, dou o sinal, sinto-me perdido, passo a catraca, sento, não sei se estou cansado. Desço num ponto, caminho até outro, pego o segundo ônibus. Olho pelas janelas, tudo parece mais escuro. Desço. Abro o portão, abro a porta, abro a porta do elevador, 4º andar. Entro em casa, não vou jantar. Sento no sofá, olho para a parede, os gatos me olham, minha esposa pergunta se está tudo bem. Aguardo tudo se repetir.

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