querida nina

por Ana de Oliveira

Acabou que não deu certo. Eu não vou mentir. Não deu certo, e nós sabemos. Mas eu não vim ditar o óbvio para você. Eu vim dizer ‘oi’ com gostinho de despedida. Eu vim ficar indecisa ao sair porta afora. Vim ficar entre o ‘sim’ e o ‘não’. Vim depois de ponderar demais, daquele jeito que você faz, na intenção de ser justa e de não machucar ninguém — aprendi isso com você.

Eu nunca soube me despedir das pessoas. Nunca aceitei partidas que não fossem de acordo com nossas vontades, acho que você sabe disso. Nunca fui de me conformar. E não vai ser agora que irei fazê-lo. É exatamente por isso que esta carta de despedida não pode se parecer como se fosse uma. Precisa se parecer como uma pergunta inocente sobre como você está.

Acima de tudo, quero que você seja feliz, de verdade. Quero que consiga alcançar tudo o que quer e que não alcançou por alguma mudança de planos. Quero que o anel no seu dedo ainda signifique alguma coisa mesmo depois de muito tempo. Mesmo que você acabe perdendo-o, pelo desgaste ou pela distração. Quero ainda ter a chave do seu coração. Só pra ficar guardado mesmo. Só pra ter o título de alguém que é motivo de seus sentimentos. Porque eu sei que não é justo que eu queira mais uma chance depois que o tempo passar. Eu sei que não devo fazer você dar marcha à ré. Vou me contentar, então, em ser aquela que você mais amou.

Eu sei que está parecendo que vou morrer ou que nós nunca vamos nos falar novamente. Mas isso é só um backup, para ter certeza de que você sabe de tudo. Você precisa saber de tudo. Precisa saber que eu irei te carregar comigo da mesma forma que levo seu colar pendurado no meu pescoço. Eu não que nenhum mal-entendido nos separe da verdade e de uma vida que deve ser vivida sem interrogações ou arrependimentos.

E só para constar, eu entendi a mensagem disso tudo. Sei que não somos menos uma história de amor do que outras só por termos um fim. O que acontece é que, talvez, nossa história fosse muito curta para ser vivida numa vida inteira. Talvez, não coubesse. Entendi que livros com menos de cem páginas também possuem coisas relevantes a dizer. Você tinha muitas coisas a me ensinar, não importasse como fossem elas, quanto fossem ou quanto tempo você ficaria.

Ainda tenho medo do futuro, eu confesso. Sei que somos nós que o fazemos. E é justamente por isso que temo. Eu sempre fiz besteiras, você sabe. Sempre atirei antes de mirar. É por isso que essa carta é tão importante, Nina. Essa carta é o botão de emergência. Eu sei que ela pode não valer muita coisa daqui uns anos, por conta de nossas mudanças. Mas eu peço, encarecidamente, que a considere vitalícia. Dificilmente você sairá de mim. [Quase] Impossivelmente me esquecerei de você.

Portanto, tudo aqui escrito serve como resposta e base para você tirar suas conclusões. Não importa o quanto eu mude ou cresça. Não importa o que aconteça, quantos sonhos eu ou você realizemos, quantas vezes ainda vamos cair ou chorar; não importa quantas pessoas ainda vão passar por nossas vidas, quantas de nossas certezas ainda serão mudadas. Não importa e jamais importará. São essas palavras que valem, pois foram escritas no auge da minha razão. O que conta é o que somos agora. Porque se terminamos isso hoje, vou terminar assim, com essas palavras, mais válidas do que qualquer outra coisa que eu tenha dito. Releia sempre que se perguntar se eu ainda a amo. Porque eu ainda te amo.

Só para diminuir seu medo, claro que vamos nos ver. Talvez a gente se esbarre e comece a trocar palavras sobre os anos que nos separaram. Talvez eu te convide para um café e proponha a loucura de embarcar comigo outra vez como foi agora — só que melhor. Talvez eu preserve tudo isso e não queira mexer em nada. Mas não se preocupe, iremos ficar bem no final das contas, seja como for.

Obrigada pela paciência, pela perseverança, por ser minha heroína. Por me salvar incontáveis vezes, por aceitar me amar mesmo de longe. Pela sabedoria que eu jamais alcançaria sem você, pelos sorrisos em meio ao caos. Obrigada por brigar com quem brigou, por chorar quando não aguentou e por ser sincera quando precisou. Finalmente eu sei como é amar. Sei como é a sensação. Está longe de ser o que eu achei que seria, mas é bom ainda assim. Amar é estar com o outro impregnado e tatuado. Amar é se sentir sortudo mesmo de longe; é ser parte de alguém. Obrigada por me deixar ser parte de você. Principalmente por ter sido uma de suas poucas certezas. Nunca conseguirei agradecer o suficiente, mas não me sinto mal com isso. Faz parte do conjunto que recebi quando me dei conta de que amava — e amo — você, o suficiente para aceitar que não me livrarei da nossa história.

Mais experiente e paciente do que antes, eu.

ps. Só pra você saber: ‘Stolen Dance’, do Milky Chance, é a nossa última música.

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