das ruínas que você deixou

por Marcia Dantas

Queria poder dizer que a aceito de volta em minha vida. Mas não posso, quando foi por sua causa que me vi em meio às ruínas que me cercaram e quase me engoliram por completo.

Você não olhou para trás daquela vez. Não se importou. Sequer hesitou; apenas partiu, deixando-me destruída, abandonada, sem saber o que fazer. Vi apenas a poeira que subiu dos seus passos apressados, e então soube que cairia num abismo profundo, que me tragaria sem misericórdia. Temi, sofri e nunca pude pedir socorro. Você era a única em quem confiava para me salvar desse lugar tão assustador onde fiquei. Mas já não a tinha por perto, então o que faria?

Tive que encarar a verdade de que dependia apenas das minhas forças. Precisava que meus pés aguentassem o peso de meu corpo, sustentassem meu levantar e guiassem os passos que precisava dar para longe daquelas ruínas que desejavam me prender naquele abismo.

E você nunca soube onde me deixou.

Muitas vezes pensei em você e tentei imaginar por onde andaria. Mas, principalmente, tentava adivinhar se alguns de seus pensamentos eram para mim. Em certos momentos não tinha dúvidas que sim, que eu estava em sua mente e que, mesmo a crueldade da sua partida não tinha destruído aqueles sentimentos que você dizia ter por mim. Em outras ocasiões apenas percebi que você nunca poderia ter me amado de verdade. Afinal, como você poderia me deixar daquela forma, sem sentir remorso algum?

Foi nesse momento em que percebi que talvez eu tivesse superestimado meus próprios sentimentos.

Não posso negar, você foi importante demais em minha vida e povoou meus pensamentos muito tempo depois de ter partido. E, agora que nos reencontramos, não consigo ignorar que ainda tem uma parte de mim que não consegue ser indiferente à sua presença ou ao modo que ainda olha para mim, mesmo depois de todo esse tempo. Mas não é a mesma coisa, não mais. Algo se desfez naquele dia, quando a vi partir tão rápido, me deixando para trás.

Você se desfez dentro de mim e tudo o que sobrou foi o modo com que recomecei depois que me vi nas ruínas sem você.

Não, por favor, não ouse dizer que se arrependeu de ir embora e me deixar para trás. Suas palavras já não me tocam, suas mentiras já não me convencem mais. Uma parte de mim queria acreditar, confesso, e retomar algo que ficou perdido lá atrás, no meio das ruínas, e que nunca consegui recuperar. Mas passou, foi embora, e já não vejo como recuperar o que havia entre nós.

Saiba que consegui me recuperar e que fico feliz em poder mostrar a você o que consegui. Fiquei mais forte e já não me deixo mais cair naquele abismo que abandonei. Estou bem e continuarei assim, tenho certeza. Só não posso permitir que entre em meu coração uma vez mais.

Apenas parta, por favor. Deixe apenas a poeira de seus pés. E seja feliz, pois eu também serei.

Uma ideia sobre “das ruínas que você deixou

  1. Esta é a literatura que sempre espero encontrar quando leio algo teu, Marcia. Mais uma vez, você me tocou, daquela forma que só você sabe. Mostrou mais uma vez teu talento, coisa inegável para qualquer leitor teu. Tenho um imenso orgulho de ti! Ótimo texto, ótimo trabalho!

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