transtorno

por David Plassa

sonhou alto deitado no asfalto
lamentou baixo
aos carros que passavam sem ternura
aos transeuntes
que reparavam apenas no buraco ao seu lado

agarrou-se ainda a um desejo maior
não ser tragado
o que parecia impossível
tamanha a força da manhã
a desmoronar sobre todo e qualquer movimento

não tinha planos
apenas sonhos espalhados ao redor
fugidios vez ou outra
sob solas indiferentes de sapatos
ou a escorrerem pelo buraco

assim, sentiu-se fraco
o corpo pesado e arrastado
escuridão adentro
fechando os olhos atrás de luz
pequenas chamas bruxuleantes
da mais pura melancolia

deitado sobre o asfalto
como uma oferenda às circunstâncias

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