de manhã acordei e percebi que deveria deixar você

por Ana de Oliveira

Das péssimas desculpas que eu poderia dar, esta é a pior:

De manhã acordei e percebi que deveria deixar você.

O sol me acordou novamente com o reflexo atingindo meu rosto. Seus braços ainda estavam em minha volta e me seguravam de maneira frouxa, sem forças. Observei suas feições tranquilas e pacíficas, talvez conformadas com nosso óbvio destino. Você, ainda que chorasse, não precisava mais de mim. Você se tornou alguém tão grande que pude jurar que alcançaria o céu apenas levantando o braço. Às vezes, nem precisava levantar.

Você era alguém simples mas predestinado a coisas enormes. Alguém que não desejava comer comidas caras, mas que de um dia para o outro estava comendo o prato mais caro do seu restaurante preferido simplesmente porque fazia parte da sua rotina. Você cresceu de uma forma tão grande que ninguém parecia conseguir lhe tocar ou ser suficiente o bastante para você.

De certa forma, sempre admirei a predileção que o destino tem por você. Sempre gostei o jeito que as coisas mudam de lugar e reviram só para que você possa brilhar mais ainda. Isso nunca me causou inveja, mas talvez medo. Medo de que a agitação natural da sua vida chegasse até mim. Medo de que o seu destino apontasse o dedo para mim e dissesse que eu precisava ser substituída, que eu já não bastava. E sempre soube que esse dia iria chegar.

Me levantei e tentei me desvencilhar dos seus braços da maneira mais gentil que encontrei, enquanto escutava sua respiração calma. Você nunca teve pesadelos dormindo comigo. Ignorei meus chinelos e andei pelo ambiente, que conheço há muitos meses, descalço. Parei na cozinha. Abri o armário e peguei o seu cereal preferido – aquele com um esquilo astronauta desenhado na caixa. Enchi uma tigela e comecei a comer.

Nesse momento parei pra pensar: eu deveria deixar você. Deveria deixar as coisas acontecem na sua vida e parar de lhe segurar aqui. Deveria parar de insistir numa relação que não é nada perto de tudo que você vai ganhar. Meu bem, você ganhará o mundo enquanto a única coisa que eu posso lhe dar é meu coração errante. A única coisa que posso oferecer todos os dias é uma rotina de alguém comum, que não se importa se a vida cair na mesmice. De alguém que não vai pagar a sessão premium do cinema. De alguém que não vai comprar o carro do ano, simplesmente porque se contenta com o de anos atrás. De alguém que sequer se importa se a cor do travesseiro combina com a do cobertor.

Quando menos esperei, chorei. A lágrima tímida que caiu e marcou meu rosto há um minuto era choro. Não pude negar, chorei a partir do momento que meus olhos ficaram molhados. E agora, vermelhos.

Não era pra ser assim. Não era assim que eu queria. Eu queria lhe prender à minha rotina familiar, aos objetivos mais simples e menos ambiciosos. E embora você não ligue nem para dinheiro, nem para fama ou até mesmo viajar mundo afora, eu sei que não é isso que você merece. O que eu quero dizer é que não é assim que deve ser porque é tão injusto e violento prender um pássaro que pode voar tão alto.

Você pode alçar voos maiores e não serei eu sua corrente.

Voltei para o quarto e lhe observei dormir. Por muito tempo. Respirei fundo e chorei mais um pouco. Não havia mais nada a fazer. Eu lhe amo, lhe amo a ponto de doer. Mas não serei feliz, nem conseguirei lhe fazer feliz, se lhe abraçar e querer lhe prender sabendo que você precisa conquistar coisas maiores do que nós dois.

E foi assim que eu acordei, com o coração partido e feliz ao mesmo tempo, e percebi que deveria deixar você.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *