falta luz

por Nicollas Conti

Finalmente chego em casa, e me parece que meu santuário consegue livrar todo o peso dos meus ombros. Pego a última cerveja da geladeira, e sinto cada gole destravando o que ficou preso à garganta ao longo do dia.

“Que todos se fodam”, penso enquanto mijo de porta aberta. Fico mais aliviado pela porta aberta do que pela bexiga vazia. É uma paz morar sozinho. O inferno são os outros. Li essa frase numa banca. Algo do Caetano, se não me engano.

Em nome da liberdade, não dou descarga. Convenço a mim mesmo que aquele ato seria em prol da sustentabilidade. Pra salvar o mundo não precisa de muito.

De tão cansado, me esqueço de comer. Desabo no sofá e tão logo ligo a TV. Seu barulho me fornece companhia.

Não sei se por conta das risadas vindas do programa ou da penumbra que surge contra a luz, a situação me faz pensar no rumo que minha vida estava seguindo.

Trabalho há dois anos numa distribuidora de bebidas, mas sou formado em direito. O que ainda me motiva é saber que lá pago mais barato pela breja, então vale a pena.

Seguir com direito nunca foi uma opção minha, a faculdade foi um sonho dos meus pais, que se empolgavam toda vez que eu ia engomadinho pra aula.

No meio dos pensamentos, e substancialmente do nada, vem a imagem da minha Clara, que morou comigo até mês passado. Na verdade não é mais minha, saiu daqui para se tornar minha recém “ex que seguiu com a vida”.

“Que eles todos se fodam!”, digo em voz alta para ouvir ecoar as palavras. O programa de comédia tinha acabado e havia começado um filme arrastado com diálogos difíceis. No momento em que levantei para procurar o controle e mudar de canal, a TV fica toda preta e escurece completamente o cômodo.

— Mas que merda… ? — tateando o sofá eu acho o controle, mas ele não liga a TV. Me levanto, bato com a canela na quina da mesa, xingo todo mundo, e clico no interruptor da luz, que também não clareia nada.

“Acabou a luz”.

Precisei de um quarto de minuto para lembrar onde eu deixava as velas, e fui me escorando nas paredes até a cozinha, amaldiçoando a bendita sorte que eu tinha. Não dá para dormir sem o barulho da TV. Era um hábito que Clara desaprovava, mas ela sempre me esperava roncar para então desligá-la.

“Ela suportava minhas manias”, e isso me fez pensar o quanto ela era radiante quando sorria, principalmente se o motivo eram minhas piadas ruins.

Mas, dane-se, vamos às velas. Abri as gavetas do armário e comecei a revirá-las, sem sucesso algum. Houve um momento em que cravei a mão no abridor de lata, e um palavrão instantâneo preencheu a casa. Joguei aquela desgraça pra longe e continuei procurando, até encontrá-las dentro de um copo de vidro. É engraçado como na escuridão aquilo me pareceu esquisito e fora do lugar, nunca havia pensado que Clara poderia estar certa quando me acusava de minhas bagunças e meu jeito desorganizado. “Ela era um saco, agora eu mijo de porta aberta”. Mas naquele momento pareceu uma vantagem extremamente vazia e sem forças.

E, como não podia ser diferente, os fósforos não estavam junto às velas. Mas quanto a isso eu tinha uma ideia mais concreta de onde estariam. Lembrei-me de um dia enquanto cagava em que utilizei os fósforos para me distrair, tentando acendê-los o mais rápido possível contra a caixinha.

Tateei até o banheiro e fui direto ao espelho que possuía um espaço interno para guardar objetos. Senti as escovas, pasta, gilete, sabonete… E lá estava a caixinha com fósforos. Vibrei com minha conquista e logo peguei um palito para acender a vela que eu segurava, e dane-se que a cera cairia na minha mão, eu apenas precisava de uma luz. Risquei contra a caixa, mas nada aconteceu. Joguei esse no chão e peguei outro, que também não funcionou. A cada fósforo que tentava eu me desesperava mais, principalmente por perceber que todos aqueles já tinham sido usados naquela vez da cagada.

— SEU BURRO, BABACA! MERDA! — Taquei a caixinha no chão, chutei o bidê e tentei ignorar a dor, que logo me invadiu. Nesse chute desequilibrado eu caí de mão na privada, que mesmo no escuro lembrei que não havia dado descarga.

Me esgotaram os palavrões, então eu chorei.

Talvez de raiva, mas mais pela situação que me fazia pensar o quão inútil eu era. O quanto Clara estava certa, o quanto meus pais poderiam estar certos, e o quão inútil eu era. Eu queria Clara novamente dizendo que eu era irresponsável e me amando e deixando toda minha vida com sentido. Nossa relação terminou com uma discussão, parecida com todas as anteriores, com ela falando e eu ignorando, meu ouvido preenchido pelo meu orgulho, meus olhos não vendo que ela estava indo irreversivelmente para longe.

Ao me sentar do lado da pia, sinto a gilete caída perto de mim. Seguro-a de maneira leve, pesando o quão indiferente seria minha saída deste mundo. Aponto-a para os pulsos, depois para a garganta. Simultaneamente a pensamentos desconexos (como o que aconteceria se me encontrassem com a cara no mijo), eu penso nela. Se ela entrasse por aquela porta nesse instante, eu a abraçaria e suplicaria todo meu perdão;  como a uma deusa, ou mais do que isso; pediria as contas e trabalharia com o que gosto (foi o que ela sempre me disse pra fazer); sentiria de verdade o que é estar vivo ao seu lado.

Na minha frente estava apenas o corredor escuro, e na minha mão a ferramenta pro meu fim. “Que meu orgulho ao menos não me impeça de fazer isso”. Dou uma última olhada para a porta da casa, esperando que ela viesse e me resgatasse, como sempre. A porta permaneceu inalterada.

Eu separo a lâmina do cabo, fecho os olhos. Encosto no pescoço.

A luz volta.

Ouço o barulho de uma música comovente vindo da televisão, e vejo a luz da sala acesa com o interruptor que mexi. Ligo a luz do corredor após lavar minhas mãos e arrumo a bagunça que estava no chão da casa. Durante toda a limpeza, eu me permito não pensar nas coisas que haviam ocorrido.

Quando chego para limpar a sala, o telefone toca. O síndico Rodriguez me liga falando sobre a queda parcial de energia no condomínio.

— […] E aí metade do seu bloco ficou apagado. E o senhor, como está? A luz voltou completamente?

E sua pergunta traz às claras o que eu deveria fazer nesse momento. Iria pegar minha jaqueta, sair dali naquele instante, e visitar uma pessoa em especial.

— Seu Rodriguez, agradeço a preocupação. Fiquei bastante tempo sem luz, e não pretendo continuar assim nem mais um segundo.

Desliguei o telefone, peguei minhas coisas, abri a porta de casa. Antes de sair de lá, com a mão no interruptor, olho bem para dentro do aposento. Ainda que todo iluminado, eu sabia:

“Falta luz aqui”.

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