ver pra quê?

por David Plassa*

Às vezes vejo pessoas sem braços
Entre abraços sob espaços irredutíveis

Às vezes vejo com olhos programados,
Finais felizes,
Deslizes perdoados

Na maioria dos casos
Sinto o retorno do herói
Que pouco fez para evitar a ausência presente
Com a cidade controlada por psicotrópicos
Razões editadas
O aroma emético da diferença como princípio
Uma distância traçada a punho próprio

Vejo o câncer o terrorismo o novo destino turístico
O pacote ideal de dados 3G
O happy hour perfeito da vizinha da prima da minha ex
A cura do HIV

Vejo a equidade sumir igualmente digitais lavadas com detergente na beira de uma pia oito horas por dia
A superpopulação
O acelerador de hádrons
Um novo planeta habitável

Vejo até esquecer
Pra lembrar apenas de obedecer

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, finge escrever um romance desde 2015 e mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve às quintas.

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