pássaro azul

por Nicollas Conti*

— Xô! Sai, sai!

Olhava da porta do quarto o senhor Pôncio espantando o pássaro azul de perto da janela. Como de costume, todas as manhãs o pássaro aparecia com sua asa esquerda machucada, e todas as manhãs seu Pôncio mandava-o embora.

— Não quero que ele pie perto de mim! — se explicava mesmo antes de qualquer funcionário da casa de repouso chegar a perguntar. Ele era conhecido por todos no lugar como “O Rabugentinho”, visto sua perícia em maldizer tudo que seu olhar pudesse alcançar. Como eu era o que mais relevava suas reclamações, o pessoal acabava me colocando para cuidar dele.

O mais engraçado é que eu nunca ouvi aquele pássaro piar.

— Bom dia, seu Pôncio, hora do desjejum.

Ele se afastou da janela e olhou em minha direção, e eu já sabia que algum sarcasmo acompanharia suas palavras.

— Veja só, Olhos Pequenos, veio cedo hoje! Como trouxe meus ovos? Não os deixou queimar, certo?

— O senhor sabe que é mingau, seu Pôncio — e rapidamente o sorriso sarcástico saiu de sua boca, desabando na cama próxima à janela e cruzando os braços.

— Maldito asilo de merda, acham que eu sou doente! Doente fico com essa comida intragável!

Me aproximei da cama e coloquei a bandeja em seu colo. Corrigi-o de que a pronúncia certa era Casa de Repouso, e ele se divertiu achando-me inocente.

— Olhos Pequenos, a mídia disfarça as coisas colocando em tudo esses nomes bonitinhos — e em seguida se aproximou do meu ouvido, sussurrando como se me contasse um segredo — Olhe, pegue essas moedas e compre na padaria um quindim bem gordo para nós, sim?

Colocou em minhas mãos alguns Cruzados, e eu nunca cheguei a contar que não aceitavam mais esse tipo de dinheiro. Recusei a oferta e saí explicando que estava atrasado para cuidar do refeitório, e seu Pôncio aceitou a desculpa. Afinal, detestava aquele lugar, e sempre que tinha chance o evitava, então eu me encarregava de trazer a comida até ele.

*****

O mais curioso eram seus costumes.

Ele possuía, desde sempre, o mesmo livro em cima de sua cabeceira, e de tempos em tempos o relia, sem nunca procurar por uma nova leitura. Falava sobre teorias Epicuristas (desnecessário dizer que ele reprovava o pensamento do livro, e reclamava toda vez que o lia).

O velhinho quase nunca colocava sua dentadura, então ela era mais vista em um copo, flutuando, do que em sua boca. Salvo exceções de quando não estava almoçando ou precisando pensar muito — dizia que “ranger dentes ajuda mentes” —, ele se via livre com sua baba.

Mas, mais do que tudo, seu Pôncio divergia dos outros idosos do lugar, que geralmente não lembravam os nomes dos funcionários e chamavam a todos de “filho”. Não, a memória do senhor Pôncio era impecável. Ele não só lembrava de cada um dos funcionários como fazia questão de nos apelidar pelas alcunhas mais infames que encontrava. A Maria da cozinha era Bolonhesa, o Pablo da recepção era Nicarágua, a coordenadora Fátima era Olho Pelado (faltavam-lhe sobrancelhas). Tinha o Ranho, a Magenta, o Meia-Cueca, o Boca-de-Sapo, a Pesca-Pudim.

Eu era o Olhos Pequenos.

Logo que comecei a trabalhar na casa, o sarcástico velhinho me chamava de Moringa. Porém, em menos de um mês ele já se corrigiu, virando-se em minha direção para que eu pudesse entender:

— Veja, sua cabeça apenas parece grande, pois são seus OLHOS que possuem uma distância muito curta entre si. Está tudo certo agora, Olhos Pequenos, não se preocupe — e daquele dia em diante passou a me chamar assim.

Alguns se ofendiam e se incomodavam, mas eu não. Eu até podia compreender o porquê seu Pôncio fazia aquilo. Na superfície poderia dizer que ele se divertia inferiorizando os outros, mas eu sentia que era algo a mais. Tinha a ver com solidão, com sentimento de abandono, com um amargor para com sua filha, que o deixou ali e nunca o visitou. Seu Pôncio nunca sequer mencionou o assunto, impunha a si mesmo uma imagem de ser inabalável, porém ficava nítido o desconforto quando outros idosos recebiam suas visitas, e ele os observava da janela. Enquanto ocorriam os horários de visita, eu levava um jogo de damas para seu Pôncio e nós jogávamos até ele se encher de minhas vitórias, ou dormir durante a partida. Nos dias em que ele estava mais calado, eu sutilmente deixava-o ganhar.

Em uma dessas partidas, após um tempo calado, ele me perguntou:

— Olhos Pequenos, você tem algum animal?

A pergunta me tomou desprevenido, então tive que rememorar por alguns segundos antes de respondê-lo.

— Ahn, sim, seu Pôncio, tenho dois gatos, e o senhor? — a maneira inconsciente como eu repliquei me fez querer consertar a pergunta, se fosse possível apagá-la, de modo que não trouxesse nenhuma memória para ele — Quero dizer, quando o senhor, sabe, antes, do senhor, ér…

— Eu tive um.

Ele encarou por alguns segundos o nada, antes de completar.

— Estou há bastante tempo aqui, nessa espelunca abatida, então sei que não está mais vivo. Inclusive fugiu de mim uma vez, pra nunca mais voltar. Era um pássaro.

*****

Acredito que nosso senso de humanidade está intimamente ligado à nossa capacidade de nos reconhecer no outro. Basta imaginar a tormentosa possibilidade de ser o único humano a não poder morrer, em vez da reconfortante ideia de alguém mais o ser junto a você.

Naquela conversa, o senhor Pôncio me explicou em poucas palavras porque ele afastava o machucado pássaro azul para longe. Não queria encontrar intimidade para depois tal animal abandoná-lo como o outro abandonou, ou como sua filha o fez. Mas, afinal, somos seres humanos, e o apego não somos nós que podemos decidir. Seu Pôncio achava que não víamos, mas ele colocava um copo com água e açúcar na janela, encobertado pela cortina, e então esperava pelo pássaro, que vinha todos os dias. Mas não para sempre.

*****

Um dia, entre o horário do almoço e o lanche da tarde, vi o senhor Pôncio andando com seu livro aberto, lendo e reclamando de seu conteúdo, como sempre. Contudo, não acredito que alguém além de mim percebera que eram reclamações diferentes das rotineiras, consideravelmente mais estridentes, e um quê de chamativas. Aquilo se estendeu por toda a tarde, até que meu turno acabou e não acompanhei-o depois disso. Como o dia seguinte era domingo, dia da minha folga, também não compareci.

Só na manhã seguinte fui descobrir o motivo de sua inquietação.

Estava preparando o mingau na cozinha, quando Pablo “Nicarágua” veio entrando aos tropeços e chamando por mim.

— Você tem de ir até o Rabugentinho! Encontramos ele desacordado no chão do pátio!

Pediram então para que eu o acordasse, sabendo de antemão que comigo a reclamação seria menor. Levei-o até seu quarto e o deitei calmamente. Ao lado da cama havia duas refeições intocadas. Pela comida, vi que eram do almoço e a da janta, e me perguntei quem foi o energúmeno que trouxe a janta sem ver (ou pior, sem se importar) que ele não havia comido nada da comida anterior.

Seu Pôncio acordou e pediu para ficar a sós comigo, e então me olhou com uma expressão de alívio.

— Não é que quase enganei a safada?

— A quem enganou, seu Pôncio?

— Aquela maldita, chegada dos mais moribundos e dos senhores como eu. Ninguém sabe quando chega sua hora, mas eu sei. Oh sim, me lembravam disso todo o dia.

Na hora é claro que não entendi uma palavra, mas, mais tarde percebi que se referia à Morte. Ele me pediu que eu o trouxesse um suculento quindim, e quando respondi que isso não era possível, ele se limitou a querer um copo d’água.

— Com açúcar, sim?

Fui até a cozinha sabendo que aquele copo não seria para ele.

O que será que havia dado nele? Será que andou pensando muito no passado? Será que estava querendo chamar atenção? Era provável, afinal, dois dias antes reclamava como nunca, para todos os ouvidos. Enquanto eu pegava a água, tentava refazer os passos de tudo que havia acontecido, o que poderia tê-lo alterado, e me dei conta de que naquele dia o pássaro azul não havia surgido em sua janela. Estranho como no momento aquilo não tinha me tomado atenção. Seria isso então?

Não pude chegar a perguntar para ele. Quando cheguei ao quarto novamente, vi seu Pôncio morto.

Corri até ele deixando o copo espatifar-se no chão. Ele poderia estar dormindo, mas eu sabia que havia se matado. Vi um pote em seu colo com alguns medicamentos caídos, totalmente restritos para ele. Com certeza tinha tentado isso lá no pátio, e agora o fez com uma dose maior.

Xinguei-o por ser um velho burro e inconsequente, mas no fundo me perguntei se eu aguentaria tanto tempo.

*****

Três dias depois, após a confirmação de sua morte, tomei coragem suficiente para ir até seu cômodo esvaziar suas coisas. Novas pessoas chegariam. Entretanto, eu não desejava naquele momento outra pessoa além do senhor que sonhava com quindins. Era contraditório: aquele que atazanava a todos e que a todos repelia, deixou uma calma soturna no lugar. Não se ouvia muito barulho e, principalmente, não se ouvia reclamações.

Seu Pôncio não tinha muito pertences: alguns pouquíssimos pares de roupa, uma escova, um único par de sapatos. Em sua cabeceira vi a dentadura mergulhada no copo, e me recordei das vezes em que, no meio da partida de Damas, ele a colocava.

— Chega de pegar leve contigo, Olhos Pequenos! — por pirraça eu sempre perguntava de que aquilo adiantaria — Ranger dentes ajuda mentes, sim?

Em baixo do copo estava o livro Epicurista. Eu nunca tinha pegado aquele livro, e o velhinho ciumento nem permitiria isso. Então eu o abri e comecei a folhear, e, para minha surpresa, marcando uma das páginas estava uma foto da sua família: sua mulher, sua filha, e ele próprio mais jovem. Em uma das mãos segurava uma gaiola, que continha um pássaro azul. Mesmo na foto, se via a asa esquerda machucada do animal.

No susto deixei o livro cair no chão, mas depois me recompus e coloquei-o de volta. Com a foto em mãos, fui até a janela de seu Pôncio, e olhei para cima.

Engraçado, naquele momento jurei ouvir um pássaro cantar.

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve quinzenalmente às segundas.

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