dizer que ainda que sem porquê

Recorte cotidiano sem urgência narrativa

por David Plassa*

Como um gato que não fareja a bílis
Como um gato que não percebe: depois do carinho poderia vir a pancada

Porque o gato respeita quem ele mataria,
[numa situação extremabsurda, bem mais fácil de existir do que nosso raciocínio sugestionável é capaz de conceber / fosse maior o gato, não teria porque tolerar-lhe]
com chance mínima de fracasso já na primeira tentativa.Meu gato sobre o tapete, sob o sol, obviamente uma manhã. Meu gato e um mexer de cabeça ginástico. Como se as paredes fossem entrar em convolução caso eu soubesse da verdade desse gato.

Eu sinto sentir, mas sou incapaz de sequer pronunciar essa ainda que nada sensação de algo cogumélico-realreal quase importante acontecendo em níveis felinos-perceptíveis. Porque não percebo como o gato, que representa tão bem a revelação momentânea em movimentos encefaloginásticos.

Eu assopro a cara do gato não sei por quê, se foi ele quem pediu ou se é apenas uma puta mancada. Ele fecha os olhos e vai com a cabeça para trás, até o limite possível e lentamente, possível e lentamente.

Embora incomodado, parece confiar em mim. Nesse caso, para a própria segurança/conformismo, o gato revisita nas pupilas quando dilatadas, a data, a causa e a cena que antecede meu último ciclo respiratório.

Como um gato que percebe o receio humano
Como um gato que percebe: após o delírio, biscoitos anti bola de pelo

Deixo o gato novamente sobre o tapete e ali ele começa a lamber-se viscoelasticamente, como que para escapar de alguma partícula alienante que porventura eu tivesse deixado sobre os seus pelos. E quando para e me dirige olhar. Quando para e me dirige olhar, intenta reforçar a contínua desconexão que atravessa os meus dias devido o déficit de consciência próprio sobre o real circundante não categorizado pela razão permissiva.*

*Digamos que o momento talvez “profundo” de determinada existência aconteça para alguns independente da íntima importância atribuída ao momento. E necessitemos de um encadeamento lógico de palavras obscuras para expressar a experiência, conforme parágrafo acima.**

**A pretensão de epifania desencadeada por comportamentos felinos instintivos lançaram-me em direção ao vazio que tento preencher com a supervalorização de uma situação descartável: um homem e seu gato/um gato e seu homem na sala de estar de um apartamento (agora citado), onde, para o discurso indireto livre, apenas o citado [clichê]vazio emergia, tanto da psiquê dos personagens quanto do cenário absolutamente comum:

  1. tapete empoeirado (a olho nu, sem poeira);
  2. sofá rasgado nos dois braços pela necessidade gatuna de afiar unhas;
  3. mesa de jantar para até quatro pessoas com vaso de planta sobre toalha de renda posicionados ao centro;
  4. estante com enfeites, vasos de planta, TV, aparelho DVD, CD’s mais DVD’s enfileirados e poeira (nesta superfície, visível há mais de três meses);
  5. mesa de centro, mas realocada no canto do cômodo para esquecimento de revistas, receitas médicas e contas pagas ou não;
  6. par do que parecem ser meias embaixo da mesa do jantar.

Temperatura ambiente: 19°C. Possibilidade de suicídio: 7%.

Da janela da lavanderia

— Edson, vai pra cama, Edson, pelomordeDeus!

Quero ter aquilo que não vai chegar
Para assumir-me:

Incompleto,                   Desconexo,
por dentro                     por fora

Esperar me mantém “economicamente viável”

Como um gato que não fareja a bílis [coro]

O gato dispara corredor adentro. Tapete revirado. Ausência. Ausência é palavra que se basta. Ausência do quê? Ausência.

Do que me resta: deito no chão para começar a rastejar. Barriga para baixo, em direção ao corredor. Barriga, joelhos, peito do pé, sexo, queixo. Certamente, muitas outras partes também, mas as descritas são as que mais me doem ou geram incômodos.

O corredor é o caule por onde se ramificam todas as outras partes do apartamento e onde procuro instalar-me ao centro, sobre outro tapete revirado por patas ágeis. Viro-me de costas para o chão, duro como a vida foi-me apresentada pela dor do outro, que usa a aridez do concreto como cama possível. E eu, ainda que contrariado, devoro a culpa como um luxo proveniente do privilégio não conquistado.

Da janela da cozinha (também de lá)

— Edson, você bebeu de novo! São onzedamanhã, Edson, Onde isso vai parar, filho da puta?

Como um gato que percebe: após o delírio, biscoitos anti bola de pelo

Toco meu corpo, as paredes, começo a me masturbar, espremendo pálpebras. O gato assiste, parado em frente à porta do banheiro de azulejo floridos (informação irrelevante). Não penso no gato. Penso em seios que chegaram até mim em mulheres que nunca terei. Termino e permaneço sob teto de tinta branca, dali debaixo cinza.

Sábado, dez do seis de doismil e dezessete.

Temperatura ambiente: – -. Possibilidade de suicídio: 26%.

Escuto a chuva lá fora. O bater do meu coração esqueci como escutar. Sei que bate desde que me disseram. Foi a chuva lá fora que me fez pensar. Não no coração, mas na cebola: preciso comprar cebolas para fazer o arroz.

O gato, cadê o gato?

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

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