humano apesar de tudo

por Nicollas Conti*

Desde que te conheci
Recebi flores, e algumas dores
Que eu nunca vi
Passaram a me conhecer

Nem de perto era tão lindo
Mas éramos limpos
Nem preto nem branco, você dizia
Éramos cinzas no campo

Precisei queimar os olhos no sol
Para ver tudo esclarecer
Você queria enxergar, eu queria saber
Onde suas flores se encaixavam

Quando não se vê, você vê
E eu a vi extasiada
Matando um rato a pauladas, como sonhos
Humana apesar de tudo

A noite subia, eu me dizia
Não há nada para esquecer
Me ensinou muito mais do que podia aprender
Eu era, em todo canto, você

Vi que as dores ensinam, as flores espetam
E quando me deixou não houve espanto
Nada era preto, nada era branco.
Tudo era muito cinza.

Isso foi há muito tempo
Nem sei se ainda me lembro
Se você chegou mesmo a nascer
Ou se muito foi um sonho
Que eu quis fazer acontecer

Sei que eu sentiria tudo de novo.
Minhas dores estão em um vaso
Minhas flores, em pleno voo
Afinal sou mais que um velho gago.
Sou mais que um velho louco.

Humano apesar de tudo.

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

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