sou o cativeiro e a prisioneira

por Marcia Dantas*

Vozes sussurram e minhas mãos tremem, reagindo sem que eu possa ter controle. Respiro com dificuldade, sem poder entender minhas reações. Temo que aquelas vozes estejam falando de mim e que se tornem risadas no instante em que virar as minhas costas.

Não é a primeira vez que experimento essa sensação de fraqueza. Cansei de contar as crises ou de mensurar os momentos de repouso em comparação àqueles que nem consigo levantar da cama. Minha vida é uma montanha russa. Gostaria de passar pelos baixos sem tanto chorar.

Sequer me lembro de quando tudo isso começou. Quando minha mente recebeu sementes de desconfiança e medo, transformando-as em plantas frondosas e tão impassivas que é impossível ignorá-las. Esbarro nelas a todo momento, sem controle ou possibilidade de fuga. Apenas tento lidar com a existência delas, esperando poder minimizar os danos. Falho muitas e muitas vezes.

Olho para meus passos, tentando guiá-los na direção certa. Tenho dúvidas de que esteja tendo sucesso nisso. É tão fácil apenas acreditar que estou errada o tempo todo, como se o mundo mostrasse o que há de pior em mim o tempo todo, expondo-me diante dos sussurros insistentes. Talvez não seja comigo ou talvez eu seja o alvo sempre, ainda que tente ignorar as vozes que me encurralam dentro de mim mesma. Estou presa em minha própria mente.

Sou o cativeiro e a prisioneira.

Fecho as mãos e controlo a respiração, tentando recuperar o fôlego e a sanidade. Choro diante do esforço. Não é fácil lutar contra a mente que se revolta e rejeita as insistentes tentativas de voltar ao normal. Ao que considero normal. Ao que quero aspirar como normal.

Estou exausta diante do esforço. Minhas energias se esgotam em um piscar de olhos.

Quero me esconder até a tempestade passar, ainda que ela esteja apenas aqui dentro de mim. O mundo lá fora continua a girar e nem se dá conta, ou pouco se importa. Estou só no meio da multidão e minha voz falha quando tento gritar. Estou isolada.

Preciso me libertar.

*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.

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