aquela casa naquele dia

por Nicollas Conti*

Na casa do morro havia uma porta
Que ninguém entrava
Que ninguém abria
Quem dera ser assim naquele dia.

Aos 12, eu nada queria
Além de quebrar o suspense
Que ela emitia.
Como bom perdedor de aposta
Para a porta eu seguia.

Já constatava desconforto nas entranhas
Ao subir o morro em minhas havaianas
Toda a criançada do bairro lá embaixo
Olhava-nos entrar, eu e Pablo.

O menino seguia ao meu lado
Tomado em pura curiosidade
Veio por isso, não por amizade
Estava rindo ao ver-me amedrontado.

Também não vim só pela aposta
Caroline me olhava lá embaixo
Seu olhar em mim era uma amostra
Que eu iria abrir aquela porta.

A passos lentos nós chegamos
Ouvidos na madeira
Não captaram ninguém gritando
Entramos para a morte certeira.

Uma casa abandonada.
Ou era isso que parecia.
Pablo disse “Viu Só?
Não tem que ter medo de fantasia”.

O vento bate, a porta se tranca.
Gritamos em busca de alguma esperança.
Um vulto surge,
Todo torto.
Vinha a nós, ele e o corvo.

O corvo grasna: Morte ou vida
Morte ouvida?
Pablo clama por vida
E, por ironia, o vulto tira-a para si.
De mim se aproxima; está encapuzado
O corvo grasna: Morte ou vida
E pela experiência assistida
Eu clamo pela morte.

“És um menino de má sorte!”
Grasnava o corvo; o encapuzado sorria
E assim, foram embora
Deixando-me só na casa vazia.
Acordo suado na minha cama
Enfim, estava apenas sonhando.
Só queria saber por que vivo esse sonho
Há mais de 158 anos.

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

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