causa mortis

por David Plassa*

Aqui está o meu único show possível.**

Ninguém se importa com quem fala sozinho, ainda que uma frase ou outra sirva de zumbido ou mau exemplo. Você está confortável e é tudo o que precisa. Um toque de despertador e cada andar esvaziando-se de mais forças produtivas. É preciso entrar na dança também, mesmo descalço ou com a meia furada (pares trocados).

Porque agora, você consegue viver mais de 20 anos comparado ã média de 200 anos atrás (carece de fontes confiáveis). Nunca fomos tão avançados, não é mesmo? Nunca tivemos tanto tempo para deslizar o dedo por telas que valem muito menos que a nossa capacidade de enxergar. Se é que um dia a tivemos esse dom — duvido.

Porque sempre odiamos alguma coisa que em maior ou menor proporção habita dentro de cada semelhante. Uma pulsação ou vontade disforme, uma energia que se distribui entre cada individuo e nunca aumenta ou diminui, apenas se conserva. É o nosso quinhão ofertado por forças universais imensuráveis para nos equilibrarmos. Veja bem: equilíbrio, e não satisfação.

E corremos atrás um dos outros, atrás de justificativas que nos mostrem que alguma coisa nessa merda vale a pena.

Já imaginou morrer agora e se dar conta de que foi apenas isso?

Você foi um corpo transportado de estação em estação para abastecer-se de alguma unidade mercadológica válida a fim de se desfazer aqui e ali, principalmente em frente a qualquer lugar em que você possa escrever há-há-há-há sem sentir absolutamente nada.

Talvez é isso que eu tente falar, mas por aqui será absorvido pela sucata algorítmica-não rentável. Para ser apenas o blá-blá-blá de um ser alucinado-ordinário e compulsivo.

** O paciente ainda não apresenta evolução diante do quadro de desequilíbrio emocional autodestrutivo-crepuscular dimensionado pelo diagnóstico imago-sensorial.

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

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