querida nina

por Ana de Oliveira

Acabou que não deu certo. Eu não vou mentir. Não deu certo, e nós sabemos. Mas eu não vim ditar o óbvio para você. Eu vim dizer ‘oi’ com gostinho de despedida. Eu vim ficar indecisa ao sair porta afora. Vim ficar entre o ‘sim’ e o ‘não’. Vim depois de ponderar demais, daquele jeito que você faz, na intenção de ser justa e de não machucar ninguém — aprendi isso com você.

Eu nunca soube me despedir das pessoas. Nunca aceitei partidas que não fossem de acordo com nossas vontades, acho que você sabe disso. Nunca fui de me conformar. E não vai ser agora que irei fazê-lo. É exatamente por isso que esta carta de despedida não pode se parecer como se fosse uma. Precisa se parecer como uma pergunta inocente sobre como você está.

Acima de tudo, quero que você seja feliz, de verdade. Quero que consiga alcançar tudo o que quer e que não alcançou por alguma mudança de planos. Quero que o anel no seu dedo ainda signifique alguma coisa mesmo depois de muito tempo. Mesmo que você acabe perdendo-o, pelo desgaste ou pela distração. Quero ainda ter a chave do seu coração. Só pra ficar guardado mesmo. Só pra ter o título de alguém que é motivo de seus sentimentos. Porque eu sei que não é justo que eu queira mais uma chance depois que o tempo passar. Eu sei que não devo fazer você dar marcha à ré. Vou me contentar, então, em ser aquela que você mais amou.

Eu sei que está parecendo que vou morrer ou que nós nunca vamos nos falar novamente. Mas isso é só um backup, para ter certeza de que você sabe de tudo. Você precisa saber de tudo. Precisa saber que eu irei te carregar comigo da mesma forma que levo seu colar pendurado no meu pescoço. Eu não que nenhum mal-entendido nos separe da verdade e de uma vida que deve ser vivida sem interrogações ou arrependimentos.

E só para constar, eu entendi a mensagem disso tudo. Sei que não somos menos uma história de amor do que outras só por termos um fim. O que acontece é que, talvez, nossa história fosse muito curta para ser vivida numa vida inteira. Talvez, não coubesse. Entendi que livros com menos de cem páginas também possuem coisas relevantes a dizer. Você tinha muitas coisas a me ensinar, não importasse como fossem elas, quanto fossem ou quanto tempo você ficaria.

Ainda tenho medo do futuro, eu confesso. Sei que somos nós que o fazemos. E é justamente por isso que temo. Eu sempre fiz besteiras, você sabe. Sempre atirei antes de mirar. É por isso que essa carta é tão importante, Nina. Essa carta é o botão de emergência. Eu sei que ela pode não valer muita coisa daqui uns anos, por conta de nossas mudanças. Mas eu peço, encarecidamente, que a considere vitalícia. Dificilmente você sairá de mim. [Quase] Impossivelmente me esquecerei de você.

Portanto, tudo aqui escrito serve como resposta e base para você tirar suas conclusões. Não importa o quanto eu mude ou cresça. Não importa o que aconteça, quantos sonhos eu ou você realizemos, quantas vezes ainda vamos cair ou chorar; não importa quantas pessoas ainda vão passar por nossas vidas, quantas de nossas certezas ainda serão mudadas. Não importa e jamais importará. São essas palavras que valem, pois foram escritas no auge da minha razão. O que conta é o que somos agora. Porque se terminamos isso hoje, vou terminar assim, com essas palavras, mais válidas do que qualquer outra coisa que eu tenha dito. Releia sempre que se perguntar se eu ainda a amo. Porque eu ainda te amo.

Só para diminuir seu medo, claro que vamos nos ver. Talvez a gente se esbarre e comece a trocar palavras sobre os anos que nos separaram. Talvez eu te convide para um café e proponha a loucura de embarcar comigo outra vez como foi agora — só que melhor. Talvez eu preserve tudo isso e não queira mexer em nada. Mas não se preocupe, iremos ficar bem no final das contas, seja como for.

Obrigada pela paciência, pela perseverança, por ser minha heroína. Por me salvar incontáveis vezes, por aceitar me amar mesmo de longe. Pela sabedoria que eu jamais alcançaria sem você, pelos sorrisos em meio ao caos. Obrigada por brigar com quem brigou, por chorar quando não aguentou e por ser sincera quando precisou. Finalmente eu sei como é amar. Sei como é a sensação. Está longe de ser o que eu achei que seria, mas é bom ainda assim. Amar é estar com o outro impregnado e tatuado. Amar é se sentir sortudo mesmo de longe; é ser parte de alguém. Obrigada por me deixar ser parte de você. Principalmente por ter sido uma de suas poucas certezas. Nunca conseguirei agradecer o suficiente, mas não me sinto mal com isso. Faz parte do conjunto que recebi quando me dei conta de que amava — e amo — você, o suficiente para aceitar que não me livrarei da nossa história.

Mais experiente e paciente do que antes, eu.

ps. Só pra você saber: ‘Stolen Dance’, do Milky Chance, é a nossa última música.

eu te disse

por Ana de Oliveira

Eu não queria falar isso.
Mas eu disse.
“Eu te disse”.
Deveria ter sido mais gentil.
Mais compreensiva
E sutil.
Pensado em todas as possibilidades.
E as adversidades
Do que viria a seguir.
Que seguiu-se.
Todavia você pensou.
E não despensou
Me dispensou.
Escuta, até haveria volta.
Se houvesse condição de sustentar um sim.
E quebrar o não.
Mas não fica assim.
E veja pelo lado bom
Existente em razoável tom
Sou mestra em sentir-me dessa forma
Triste e infeliz
Posso ajudar-te
A achar uma diretriz.
E não me entenda mal.
Isso é natural
Ser educada
E civilizada
Com quem já foi amada
Num romance habitual.

romantizando dores

por Ana de Oliveira

Você está romantizada em mim. Falando em voz alta, não parece ruim. A sua escolha, sua fuga, bate em mim como consequência da vida. A vida quis assim. O problema é porque a vida sempre parece querer o pior pra mim. E eu nunca entendi isso.

Para mim, você nunca me deu as costas. Não fez isso. Caiu um raio na sua cabeça, e de repente você não podia mais lutar por nós. Só por isso. Não foi porque você desistiu de continuar firme. Foi porque você não aguentou. Foi porque você foi vítima. Não perdeu o que sentia por mim, perdeu um braço.

O problema sempre parece estar em mim, que nunca compreendo bem as pessoas. Que nunca vê o quanto elas sofrem e que não entende que é preciso sofrer — sempre — para ver um resultado bom lá na frente. A culpa é sempre minha, que nunca lhe dá — mais uma — chance pra nada. Que nunca acredita — tolamente — em você. A culpa sempre cai em mim, que, mesmo não conseguindo pensar em mim mesma, consigo ser egoísta.

E é assim que eu volto pra você pedindo desculpas. Como se, mesmo carregando um peso imaginário, tivesse feito tudo de errado. Como se só a minha respiração incomodasse. Eu não devo, de jeito nenhum, discordar da situação que você insiste em nos colocar. Preciso aceitar, porque tenho que compreender você. Preciso ser o exemplo de namorada para você. Só acho coincidência você não precisar ser o mesmo pra mim. É estranho não receber nada de você. Mas, essa parte devo ignorar. Até a dor, tão romântica, me fazer sangrar.

quando eu quase morri

por Ana de Oliveira

Meu amigo,

Não consigo lembrar de palavras melhores para dizer o que aconteceu. Em algum momento, me senti perdido dentro de mim mesmo, e não pude fazer nada a não ser acenar que sim com a cabeça, confirmando que aquilo estava, de fato, acontecendo. No parapeito da minha janela, meus pés pousavam, enquanto a vertigem chegava de mansinho; tenho medo de altura — e mais ainda de cair.

Por alguma insanidade, pensei um pouco antes de concretizar o que eu julgava ser minha única opção. Larguei o frio da janela e a fechei, na tentativa de me sentir aquecido pelo menos nos meus últimos minutos. O calor do meu quarto fez com que meus pensamentos se concebessem mais rapidamente, e de repente meu falecer já não era tanto. Contatei, através do celular, para minha amiga de longa data, a Madu. Ela mesma, caro amigo.

Depois de um cumprimento morno, comecei de fato a conversa confessando que gostaria de que tivesse um rio à minha frente. Porque eu não pensaria duas vezes antes de pular. E, como você sabe, meu caro, eu não sei nadar. Desejei sentir o sufoco e a frustração em respirar com facilidade, desejei que algo me puxasse rio adentro. Ou melhor, que fosse uma correnteza. Me levasse para onde ela quisesse, eu ao menos iria contestar.

Para a minha surpresa, ela desejou o mesmo. Perguntei-me se por acaso passava por situação parecida, e, se fosse verdade, eu saberia. Ela sempre correu até mim quando sentiu-se ferida, e, por força do hábito, passei a carregar esparadrapos e palavras gentis no meu bolso. Então continuou dizendo que não se sentia tão bem mais, e que não adiantava mais correr, pois todos os lados pareciam cercá-la. Ficamos naquela compreensão mútua, numa situação semelhante a alcoólicos anônimos, compartilhando nossos demônios.

Até que ela percebeu a veemência com que eu pedia aos céus para desaparecer. Era muito real e não poderia ser dito da boca pra fora. Era muito enfático para ser uma medíocre analogia. E me perguntou: você não quer morrer agora, quer? Sinceramente, amigo, disse que sim. Tentei de tudo para seguir meu lema, mas eu havia chegado num ponto em que isso me pareceu inviável. Assim como ela havia confessado, todos os lados pareciam me cercar, e a sensação de sufoco apertava-me a garganta.
“Vamos viver assim até quando?” ela me perguntou, mais uma vez tomada pela ciência, tentadoramente boa, de que não era a única nesse barco.

“Até não viver, Madu.”

E aí, ela soltou todo o seu desespero confesso. Não dava para viver sem mim. Conhecia como era a sensação de não sentir-se a salvo em lugar nenhum, conhecia a dor, e só eu sabia que sim. Do que precisávamos?

Eu precisava de paz, meu amigo. Ainda preciso. Mas antes queria terminar meus projetos começados. Seria ridículo sair correndo para algum lugar muito melhor que a Terra deixando as razões da minha existência para trás. Tudo que eu lutei tanto para conseguir. E de repente consigo, e dane-se? Não, dane-se nada.

Entretanto devo dizer que a tentação era muito grande. Mas tinha a Nina – ainda tem. Pensei em deixar uma carta, como essa que escrevo, me parecia certo. Perguntei se deveria avisar exatamente minha hora de partir à Madu. Ela pareceu incrédula e não queria realizar que eu estava mesmo oferecendo esse tipo de aviso.

“Você me ama?” ela indagou.

Que pergunta idiota. Claro, eu te amo. Diante disso, e da propensão de ela a fazer o mesmo que eu pretendia, pedi para que não o fizesse. “Não se mata, tá” pontuei, antes de dizer que gostaria de pedir desculpas à Nina. Ela certamente não merecia isso. Não merecia que eu entrasse na vida dela do nada para sair dela também do nada. Depois de ter feito uma bagunça e tanto. Meu amigo, eu baguncei a vida daquela garota como jamais pensei que fosse o fazer. Mas ela é incrível, sabe? Não consegui dizer não à tentação de ser o amor dela. Eu quis, eu fiz, eu fui — e ainda sou.

Não faria sentido deixá-la naquele momento. Todavia, pior ainda era achar que eu possuía forças para continuar. O único esforço que ainda havia em mim estava guardado para pular da janela. Apenas. E ainda assim não teria garantia de morte, porque a altura era relativamente baixa. Mas pelo menos me sentiria vivo mais do que poderia sentir sentado naquela cama, falando da minha vida ferrada com a Madu; que por falar nela, disse que não enxergava a vida dela sem mim, seu irmãozinho mais velho. Como poderia viver? Certamente melhor do que eu, Madu.

Passei horas convencendo-a de que eu não pertencia mais a este mundo, e que meu lugar era outro. No desespero, naquela voz quase irreconhecível, ela começou a me implorar, com total ciência do que estava fazendo. Disse que estava de joelhos e me senti mal. Porque eu não queria ninguém implorando minha existência, ninguém sofrendo. Pena que o sofrimento era inevitável.

Em um determinado momento, cheguei a conferir minha janela, para ver se ainda sentia aquela vontade infinita de pular dali. Mas, conforme as palavras de Madu foram chegando aos meus sentidos, algo aconteceu com aquela janela, já não mais tão convidativa. Não sei o quê, mas eu não quis nada além de sentar e me obrigar a ouvir o choro de Madu e pedir que ela parasse. Eu não queria ouvir nenhuma lágrima sua. Porque a partir daquele momento, a desistência temporária havia chegado com uma cara boa. E me convenceu a repousar na minha cama quente.

Não quero imaginar o que você vai dizer, meu amigo. Porque sei que chegaria muito perto de acertar. E, olha só, já estou imaginando. Você me repreenderia. Diria que não tenho culpa nem da metade das mazelas que acontecem na minha e na vida da Nina. Mas é que aquela bomba lá, cogitar o pior, me quebrou todo. Eu não queria ter que me afastar da garota que eu gosto só porque a mãe dela fez um inferno na Terra. Só que, dentre todas as outras opções, naquele meu mais novo momento de loucura, isso parecia certo.

Obrigado por sempre ter as certas palavras na boca, caro amigo. Hoje eu as encho de razão. Não tenho culpa de tudo, e, ainda que o medo tome conta de mim, precisarei viver. Precisarei terminar tudo que comecei, fazer Nina feliz, e ser o amparo de Madu. Se eu quis morrer por falta de vida, preciso começar uma para que isso não mais aconteça. E não há nada que eu deseje mais do que estar aqui, na Terra, cumprindo minhas tarefas. Inclusive, terminando esta carta, e alongando ao máximo nossa correspondência.

Ainda chocado com a gravidade de minha fraqueza, eu.

desistência

por Ana de Oliveira

Durante um bom tempo, eu sempre me perguntei o que as pessoas pensavam quando queriam desistir. Basicamente, eu, assim como muita gente, considerava isso uma derrota. Simplesmente não fazia sentido lutar tanto por algo e, do nada, não querer mais. Fui criada na base dos apesares, de que a vida tem dessas coisas, de fazer você querer jogar tudo para o alto. Me disseram que eu nunca deveria desistir daquilo que eu quero, e que a insistência é tudo — ou pelo menos era.

Uma coisa que eu hoje tenho na mente é: essas pessoas ainda não haviam passado pelo que acabei passando. Por algo que todos nós, algum dia, vamos passar.

Para começo de conversa, somos humanamente iludidos. Talvez porque automaticamente buscamos o caminho mais prático, ou aquele que mais combina com o nosso modo de ver e lidar com o mundo. E isso não é culpa de ninguém. Pelo contrário, é natural. Sendo assim, apanhamos todas as nossas experiências e as transformamos em lições. Basicamente, isso tudo se resulta numa espécie de enciclopédia, que sempre consultamos quando uma pedra cai no nosso caminho.

Então, a minha primeira lição foi essa: nunca desistir. Foi dada uma dica de jogo, na esperança de que eu não precisasse passar pelas mesmas provações que muita gente passou. Só que com o tempo, você vê que não é possível evitar. Talvez chega a ser frustrante ter uma dica de vida e ela nada valer. Com isso, percebi que às vezes os apertos se fazem necessários, mesmo com nossas tentativas frágeis para evitá-los, porque trazem o entender de que precisamos lutar pelo que queremos. E isso eu entendi perfeitamente. Uma prova? É exatamente este texto, neste blog. É a prova de que eu nunca deveria desistir da escrita.

Tudo bem, eu entendi sobre insistências. E humanamente iludida, tomei essa lição como verdade absoluta, ou receita de vida. Só que, mais uma vez, eu levei na cara. É incrível como a gente sempre acha que sabe de tudo, que já vimos esse filme antes.

Fiz exatamente o que disseram pra fazer e o que eu já tinha feito antes. Por experiência, disse a mim mesma: vai dar certo, porque você está fazendo tudo certo. Eu sei que o conceito de certo e errado muitas vezes é relativo. E naquele momento, meu conceito de certo era saber que eu fiz de tudo para as coisas ficarem bem. Por alguns meses, aquilo foi o bastante. Eu tinha um mantra baseado em “aguente firme”.

Entretanto, nem tudo precisa ser suportado firmemente. Nem tudo, ou todos, precisam ser parte de você e da sua vida. E a gente só começa a aprender isso quando passamos mal. Precisei perder a vontade de continuar firme para entender que eu podia não precisar daquilo. Seguir outro caminho poderia, sim, ser uma opção válida – e não tinha nada de errado nisso.

É óbvio que essa outra opção não é bem aceita logo de cara, e que ela é sempre posta em segundo plano. Até porque, se você desistir, tudo vai começar a dar errado, e você nunca vai conseguir o que quer. Talvez foi nesse momento que me perguntei o que eu queria exatamente.

Eu não queria dor, eu não queria uma vida dura demais, eu não queria sacrificar minha felicidade por um bom tempo para esperar o resultado desejado. Aliás, eu nem sabia mais se aquele resultado era o que eu queria. De repente, meu mundo foi chocalhado e minhas verdades questionadas. Foi a partir dessa falta de querer, dessa mudança de percepção, que eu quis jogar a toalha. Desistir mesmo.

Não teve a ver com egoísmo ou falta de generosidade. Não foi falta de paciência, tampouco ausência de compaixão pela situação. Eu sei que envolvia outra pessoa, talvez outras pessoas, e que a priori isso parecia covardia ou qualquer outra coisa negativa. Só que, diferente do que parecia, teve a ver comigo primeiro. Eu convivia comigo o tempo todo, via tudo pelo qual eu passava, via minhas mudanças bruscas e desnecessárias. Vi outra pessoa assumir o meu lugar. Eu me vi passar mal. Então, não tem a ver com falta de generosidade. Não é generosidade mais quando você se machuca, se quebra, para que as coisas funcionem. Se é preciso as feridas e a dor, a persistência não tem que existir.

A visão da dor é romantizada demais. Nós não somos mártires nem heróis. Somos um sistema que falha, que é fraco. Todo cuidado parece extremamente pouco. Muitas vezes, insistir no que só parece machucar não melhora as coisas. Não ameniza a dor. É quando você coloca o celular para carregar numa tomada com defeito. A esperança está lá, mas o resultado esperado, não. Nunca vai estar.

Portanto, se eu tivesse que dizer alguma coisa, como dica de vida, eu diria que desistir também faz parte; que isso não te faz pior que ninguém, que você não passa a carregar mais culpa. Você não tem que ficar aguentando tudo e todos só porque precisa mostrar o quão bom deve ser. Às vezes a situação não merece o melhor de você. É, é isso. Não é que estou mudando meus conceitos sobre persistir. Eu só estou acrescentando os de desistir. Uma dicotomia saudável e necessária.

Ah, eu diria outra coisa: nada disso vai impedir que você viva o que eu vivi. Não vai evitar que tudo que você acredita seja posto à prova. Tudo isso vai acontecer com você; de outra forma, mas vai. Mas a minha esperança é que você não precise se flagelar tanto quanto eu fiz para entender que é possível, e saudável, desistir.

não é bem assim, meu bem

por Ana de Oliveira

Eu costumava ser entusiasta. Você colava a bunda na cadeira e eu não via problema algum. Que mal tinha segurar todas as pontas da corda? Eu fazia pouco caso do seu pouco caso. Achava até lindo. Um dia você me agradeceria e faria um discurso sobre como isso salvara nossa relação. Eu havia lido muito sobre isso, como um lado apenas poderia agir pelos dois. Li que algumas pessoas esqueceram o amor próprio no bolso, fingindo que o relacionamento não é uma troca e que poderiam se contentarem com apenas a simulação de uma retribuição.

Confesso que de começo isso seria até heroico. Não é muito bravo salvar uma relação com apenas a boa vontade? Não é digno de aplausos? Eu aplaudiria. Mas só se não fosse eu ali, sendo iludida mais uma vez, admirando sua figura inerte grudada no computador. Não me entenda mal. Eu ainda lutaria por nós dois; ainda sustentaria todas as minhas promessas. Mas é que você nem demonstra sinal de vida diante disso. E ficou bem claro para nós de que deveríamos fazer tudo aquilo que precisássemos. Só que não sei onde estava escrito que eu precisava fazer milagres. Me mostre onde combinamos isso, porque não consigo entender. Se tudo que precisamos é de algo beirando ao impossível, então…

Você me olha com aquela cara de tanto faz e me dá um beijo, esperando que eu me iluda com o pequeno carinho. Já os seus olhos… eles pedem para que eu não acredite em sua boca, porque ela não sabe mesmo o que diz. Realmente, não sabe.

Tente me entender. É que não é bem assim, meu bem.

Eu não sou nenhuma mulher maravilha, não tenho essa força quase subumana que você pensa que tenho. Não sou corajosa tal qual as amazonas que você vê na televisão nos finais de semana. Muito menos uma supergirl que vai fazer de tudo para salvar o mundo. E, por último, não sou suicida emocional. Eu sou fraca, meu amor. Fraca, mesmo. Que fique claro. Fique claro, para que você não me pergunte porque eu não atendo suas ligações logo no primeiro toque. Que as pequenas esperas, que lhe têm obrigado a exercitar sua paciência, são fruto da minha hesitação.

E não, isso não é coisa de mulher. Isso é coisa de alguém que ao mesmo tempo que te ama, se ama também. E que não está sabendo conciliar esses dois sentimentos tão fortes. Eu ainda não sei onde termina meu amor por você e onde começa o meu próprio. Para mim, esse limite tá borrado. O certo e o errado me parecem tão um só. Tão juntos e únicos.

Entretanto, decidi que não vou esperar para sempre. Porque eu não sou aquelas personagens de cinema de comédia romântica que veem solução em tudo. Não posso me permitir ser tão pouco de mim só porque isso não te é favorável. Acho que isso é um problema seu. Ver que eu também tenho capacidade de decidir o que quero para mim, mesmo depois de me embriagar de hesitação. Embora eu tome muitos cuidados antes de me pôr decidida para algo, ainda tenho aquela pequena vontade de ser livre. E não falo de solteirice não, meu amigo. Eu falo de poder ser livre sabendo que não preciso ser nada além do que eu. Sabendo que eu não preciso ser você ao mesmo tempo que sou eu mesma. Sabendo que não tenho que sustentar o lado que você insiste em afundar. E sabendo que tudo o que eu estava fazendo não passava de um plano para não me afogar, o que seria inevitável. Eu estava errando feio com nós dois. Estava sendo duas por nós. Duas em uma por nós.

E não é bem assim, meu bem. Não é assim que funciona.

transtorno de patriarcado

por Ana de Oliveira

Armando entrou pela porta da frente. Felipe a seguiu, aproveitando-se da má iluminação da rua. Tiago namorava uma menina, queria fazer acontecer porque estava com vontade. Hugo era padre e chamava suas ações de gosto peculiar. Carlos andava com um remedinho no bolso.

Armando chegou mais cedo naquele dia. Justamente no mesmo horário que Cibele. Sozinhos no ambiente de trabalho, ele sorriu de lado. Trancou a porta do escritório. Chegou por trás e alisou os ombros da mulher; o coração dela acelerou. Mas não era atração, não era amor.

Felipe saiu tarde da boate. Trabalhava como segurança. Andava despreocupado na rua aparentemente deserta, assoviava. Até que, ao virar a esquina, encontrou uma moça. Alice, colega de trabalho, mixer de bebidas. Sempre gostou dela, mas ela recusava todos os seus convites para sair. Essa é a minha chance, preciso ficar com ela, pensou. Apressou os passos e a tomou pelo braço. Jogou-a beco adentro.

Tiago namorava Carol. Era um namorado carinhoso, sempre deu atenção. Gentil, mas um pouco apressadinho. Queria levar o relacionamento a mais um passo, apimentar as coisas. Entretanto, Carol não se sentia pronta, não queria ainda aquele tipo de contato. Ela negou, mesmo que ele tivesse pedindo mais de uma vez, gentilmente. Até que engrossou a voz e disse que aquilo aconteceria naquele momento, no quarto dela. Porque ele era o namorado dela, e ela precisava satisfazer as vontades dele. Sabe como é, né. Eu sou homem, tenho minhas necessidades. Contrariada, Carol o fez. Forçada. Chorou a cada minuto.

Hugo era padre há anos. Conhecia a menina Yasmim desde que ela nasceu. Fora batizada na igreja; seus pais, amigos de longa data do padre. Precisou ficar sob os cuidados do homem por alguns minutos enquanto os pais saíram para comprar os alimentos para a festa da igreja. Hugo aproximou-se da menina, que tanto confiava nele. Alisou os cabelos e o que mais pôde. Pediu que ela nada contasse, porque Deus não gosta de menina desobediente.

Carlos gostava de sair sexta-feira à noite. Era um farrista de carteirinha. Conheceu Bianca numa noite dessas. Dançaram juntos e conversaram quase a noite toda. Mas no final das contas, ela não queria ficar com ele, gostava de garotas. Carlos não gostou nada do que lhe fora revelado. Aproveitou a distração de Bianca e tirou o remedinho do bolso. Ela nem notaria algo diferente na bebida.

A moça da saia curta deveria dar para ele, se expondo desse jeito, só quer uma coisa.

A menina, que ainda é uma criança, está oferecida demais, ele não poderia resistir.

Aquela mulher deveria ter aceitado os convites de Felipe, olhe só, que bom partido. Foi até gentil com ela.

Podem apostar, se o Armando fosse bonito, a Cibele teria adorado!

Mas o Tiago era namorado da Carol, estava com vontade. Depois ela não sabe porque ele quer trocá-la. Se o homem não encontra o que quer dentro de casa, ele procura lá fora.

Armando, Felipe, Tiago, Hugo e Carlos agradecem vocês. Sem as piadas, sem o silêncio, sem os discursos misóginos, sem a indignação de vocês, sem a cultura que mata e estupra, isso nunca teria acontecido. São mesmo doentes. Ainda que saudáveis e conscientes da escolha, das atrocidades que fizeram. Ainda que tenham tido o apoio de vocês, que naturalizam suas (horrendas) ações e culpam suas as vítimas. Isso realmente é um transtorno. Coisa de louco. Transtorno de patriarcado, de cultura do estupro. Sociedade e homens são cúmplices por alimentarem, tão forte, os discursos mais absurdos e violentos. Vocês matam e estupram mulheres. Diante disso, eu vos declaro culpados!