terça-feira parte II — regar

por Caê Jansen

Seus ossos foram esmagados
Porém o vazio era tanto
Que nem a dor existia
O corpo compacto como uma semente
Foi banhado com o sangue de outrora
E então o suor que antes lhe escorria do rosto
Lhe serviu de alimento
Não sabia
Mas a partir de agora sua vida iria começar
Aquela terra onde foram plantados sangue e suor
Agora seria seu túmulo
E depois, o local de seu nascimento
Mas por hora apenas adormeceu profundamente

—–

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terça-feira parte I — plantio

por Caê Jansen

Correndo e escondendo-se
Desviando da claridade
Esgueirou-se até a raiz
Suas mãos rasgavam a terra
Entre seus ásperos dedos, que incomodavam a maciez não antes pisada, encontrou
O fio agudo de uma dor latente
Virgem e imaculada terra fértil para o plantio
Em sua face suada, seus olhos incomodados com o salgar tentavam focalizar a correnteza rubra que ainda não sabia dizer de qual parte da mão escorria
De repente o chão ruiu em uma espiral de poeira e fumaça elevando seu corpo para um infinito vazio, completa ausência

corpo fechado

por Caê Jansen

Meu corpo é fechado e minha mente aberta.
Todos que me derrubaram tiveram que conviver com uma visão:
Eu me levantando e continuando a caminhada ainda mais forte.
Bate mais, que aqui o casco é duro e aguenta porrada desde muito cedo.
A cada vez que me levanto estou mais forte e sábio.
Então…
Obrigado pelas quedas e murros que me tornaram o homem que sou.
E por favor, quando me ver reerguendo-me, não esqueça de olhar o meu sorriso, pois ele é pra você que acha que pode me deter.

frio

por Caê Jansen

esse frio que machuca
e inquieta a mente
de quem foi feito
apenas para queimar

o frio que corta
feito navalha
a carne quase podre
do indigente caído ao chão

frio que deprime
que oprime e censura
a leveza da roupa
e a fluidez do ser

frio que me escorre
machuca as entranhas
e me lembra
estou longe de casa

[…]

por Caê Jansen

É necessário
Abrir os olhos
Apurar os ouvidos
Estar sempre atento ao redor
O mundo é a melhor escola
Saber viver nele é uma arte.
Não prenda-se a um lugar
Mergulhe no desconhecido
Assuma o controle da sua vida
Plante boas sementes
Ouça diferentes pessoas
Siga seu coração
Fuja da ganância
Dinheiro e coisas são finitos
Experiência são eternas.
Viva o hoje
Se prepare para o amanhã
Porque ele virá
Mas não agora
Agora… É agora

livres

por Caê Jansen

somos livres
e podemos escolher
entre o que nos mandam
e o que nos permitem

somos livres
para obedecer
nos repetirmos
e sem notar
o livre arbítrio
é condicionado
por comercias de tv

se fossemos livres
nos deixariam escolher
viver diferente de todos
mas enquanto gira
o mundo se repete
novas vozes e velhas frases
e nada de novo
só queria escolher
o caminho do meu viver

entre loucos

por Caê Jansen

estou entre loucos
e me sinto em casa
posso ser eu mesmo
assistindo absurdos
que me instigam
me sinto apto
para recitar poemas
e viver (des)amores.
morrer não é mais opção
talvez ainda seja a solução
para o fim dos problemas.
mas são exatamente problemas
que ando procurando
logo, continuo a viver
como se não houvesse
o amanhã nem o talvez.
me sinto confortável
pois estou entre loucos
sozinho, na sala de casa.