beijo roubado

por Bruno Black [do livro Poético]

Inesperadamente você aparece
E eu vejo-me literalmente do seu lado
Seus olhares pareciam já pertencer ao meu
Mas nos comportamos na certeza de que teríamos muito ainda a trocar.

Aos poucos vi minha voz sussurrando no seu ouvido palavras de amor
E seus poros se abriram pra sentir meu calor
A conexão estava divina
E os desejos que não são bobos foram tomando forma
E quando quase te tive pra mim de total verdade
Você se levantou como um foguete, me deu um beijo
E pulou pra fora do ônibus como se fosse uma miragem!

Por pouco pensei:
Acho que encontrei o grande amor da minha vida
Mas acho que depois disso, nem vivo de verdade eu estava
E percebi que meus olhos do corpo estavam fechados
E logo era um belo sonho!

Só ficou uma duvida no ar:
Será que sonhos se realizam?
Que beijo roubado foi esse, acho que roubou meu coração junto!

22 de Janeiro de 2015 — 01h17min

_____

Bruno Black tem um lema: “Se tens um dom, seja!” Jovem poeta com diversos prêmios conquistados e seis livros publicados. São eles Perdas e Ganhos, Face A Face O Que Tu Me Diz?, Minha Cidadania Violada Até Quando?, Face A Face Eu Ser Palavra!, Poético e Poetas Sem nome! Participou de 10 bienais e diversas feiras. Em 2016, chamou a atenção da cantora Maria Bethânia com poesia acima.

吸血鬼

por Raphael Conti

Eu sou 吸血鬼 (Kyūketsuki).

Minha vida antigamente era ser empunhado em guerras.

Meu senhor passava o meu corpo, com a delicadeza de uma pena, numa pedra fria. Bem devagar, apenas para cortar a carne mais fácil.

Ele dançava comigo ao som do vento, cortando o ar em movimentos elegantes.

Meu corpo cortava a carne vermelha dos oponentes em meio à guerra, deixando-os sem vida. Adentrando o peito de pessoas que eu nunca tinha visto, eu sentia o calor esfriar ao contato.

Corpos espalhados por todas as partes. Alguns sem vida, outros perdendo-a aos poucos.

Em meio à batalha, eu estava sempre cheio de sangue seco, mas algumas gotas pingavam de mim sujando o chão à minha volta.

Quando não estávamos em meio ao caos, eu ficava em minha cama, quente e escura. Se eu saísse de lá era para ficar a céu aberto, o que eu adorava. Sempre em locais diferentes, dos quais eu guardava todos os detalhes para quando estivesse no banho de sangue. Eu visualizava e tentava ter paz com tudo aquilo.

Mas por que tudo isso?
Por que essas batalhas?
Por que o banho de sangue?

Meu Mestre falava que era por “honra”. Mas matar uma pessoa não tem a ver com honra. Por que ele faria uma coisa dessas por causa dessa tal “honra”?

Vários anos se passaram desde que meu Mestre se foi. Eu tive mais alguns e todos eles lutavam por honra. Todos tiveram o mesmo destino.

Hoje eu fico pendurado em uma parede branca. Faz tempo que não vou à luta. Mesmo com todo aquele sangue, sinto falta de um Mestre me empunhando contra o vento, cuidando de mim, como seu eu fosse um filho.

Mas por causa da maldita honra, eles vão embora cedo demais.

_____

Raphael Conti, 20 anos, mais conhecido como Comissário Gordon. Futuro empresário e proprietário da Gordon Tower. Ajuda o Batman e seu fiel companheiro David nas horas vagas.

o tempo

por Victor Rossi

Sou uma pessoa que sempre olhou o mundo com outros olhos, sempre tentei mostrar algo que eu não sou. Há uns dois anos eu terminei um namoro e sofri muito, pensei que não seria mais eu. E de fato, não fui. Amigos que me mostraram que não eram amigos, pessoas para as quais eu me jogaria na frente de um caminhão para salvar hoje são somente mais um contato na minha agenda.

Eu lembro que em uma noite fria, após um banho doloroso, eu olhei para o espelho e disse a mim mesmo: “você não sofrerá mais, ninguém vai fazer mais com você o que fizeram, a partir de hoje, chega!” Eu sou muito cético, não acredito em forças paranormais nem deuses, mas tive certeza que aquelas palavras ditas de Victor para Victor me tornaram a pessoa que eu sempre quis. Quem eu sou hoje.

É claro, pessoas do nosso passado deixam saudade. Uma música, um cheiro, um lugar pode mudar completamente a nossa rotina diária. Agora mesmo, estou escutando Cícero…

O tempo muda nossa cabeça de uma forma incomparável, coisa que nenhum Tarja Preta faria. Ele ensina, mostra, é justo, puro. Quando meus pais diziam isso, eu não levava a sério e achava que o presente é onde temos que resolver todas as nossas inquietudes. Mas não é! Nada que o homem descubra ou construa será mais importante que o tempo.

Nunca esqueci de quem eu fui, quem esteve na minha vida e quem não quis ficar. Mas com isso aprendi a ser somente o cara que curte motos, escreve alguns textos a cada quinze dias e não gosta de multidões. Com o tempo eu aprendi a ser só… Eu.

_____

Victor Rossi reside na Zona Norte de São Paulo. É piloto e amante do motociclismo. Viaja sempre que pode, sem motivo ou destino. Escreve quando tem um tempo livre e troca qualquer coisa por uma boa noite de pizza com os amigos. Ao som de Dio, Black Sabbath, Anathema e outras bandas clássicas de Hard Rock, tenta encontrar seu lugar no mundo e ajudar pessoas o máximo que puder.

quem ama o feio

por Milena Giorgetti

Às 8h30 da manhã de 1º de janeiro de 2017 ouvi o barulho de motosserra na porta da minha casa. Meio atordoada, só pensando em chegar logo e dormir, solto um sonoro “que porra é essa?” Meu companheiro, melhor informado que eu responde: “é o Cidade Linda do Dória”. Uma verdade que me parecia piadinha naquela hora. Um bando de operários trabalhando cedo no primeiro dia do ano. Um domingo. Cidade linda. Não é piada?

Lógico que começaria por aqui, numa avenida que divide os bairros Itaim Bibi e Jardim Paulista. Prenúncio de que os galhos da poda era brincadeira de criança. E a brincadeira de dias mais tarde virou de adulto, no “clichezão” de Cinquenta Tons de Cinza. Pantone abaixo, tinta acima e a guerra começou.

Eu que cresci nesse bairro de elite, por mais que lute para entender as diferenças e em não pensar só no meu “umbiguinho”, assumo que tenho (pré)conceitos instalados sei lá de onde. Acho que vem da infância. Pois bem, ao invés de concordar com o meio que me cerca, lá fui eu me inteirar sobre o tema. De forma superficial, confesso, mas é ótima a sensação de um novo jeito de enxergar. Aquele movimento de novas ideias na mente.

Eu sempre achei “pixo” (com “x” em pixadorês) uma coisa horrível e de vândalo, mas descobri que na verdade é uma forma de comunicação. Tinta e letra, é isso certo? O que eu nunca tinha me ligado, afinal, eu não falo essa língua. A parte social da coisa já é bem mais interesse do que o rótulo ‘vândalos’. Continuo achando horrível, o que é opinião e não argumento.

Mas esse tema logo ficou no fundo da mente e pulei pros grafites. Esses eu curto, tem cada belezura por aí! Com certeza deixa a cidade linda. Tem coisa boa e tem coisa feia, arte é isso. O que é belo pra um é feio pro outro, mas não deixa de ser arte. Entre grafite e Romero Brito, que venham os grafiteiros! Tudo gosto, tudo arte.

Que a guerra será longa, é fato. Assim como as batalhas anteriores foram vencidas pelo “pixo” e grafite, sem exceção. Como ouvi “se a tinta for boa, é muita tela nova pra arte de rua se renovar”. Tomara!

_____

Milena Giorgetti é bióloga, ama a natureza e tudo o que dá vontade de sorrir. Gosta de gatos, crianças, velhinhos, assistir Tv e cozinhar. Acredita muito na própria intuição, o que a faz querer ficar próxima de certas pessoas e longe de outras.

três horas

por Victor Rossi

São três horas da manhã. Eu poderia estar lendo, assistindo alguma merda na televisão ou fazendo o que as pessoas normais fariam nesse horário: dormindo.

Dizem que os portões do inferno abrem às três da manhã e todo o mal se espalha na Terra. Os anjos caídos semeiam o caos e a discórdia, as bruxas voam espalhando tristeza e eu fico inconformado em como tem gente que acredita em todas essas baboseiras. Em como as pessoas prestam mais atenção nisso do que em todas as maldades diariamente ao nosso redor.

Signos, religião, vozes, fantasmas. Já parou para pensar que na verdade você é uma gota d’água em um oceano e que tudo pode não existir? Eu não falo isso com raiva e tampouco para atacar alguém. Digo porque percebi desde cedo o quão somos pequenos comparados com toda a existência. Comecei a ver a vida de outro jeito depois que perdi o medo de coisas que nos criaram para sentir medo. Não vejo diferença alguma entre uma criança que acredita no Papai Noel e um adulto que alimenta a crença da mulher vinda de uma costela.

São três e pouco da manhã e eu fico pensando em como nós, seres humanos, procuramos diariamente alguma explicação divina para nossa miséria existencial e nos esquecemos do básico: somos todos animais e estamos aqui para comer, se reproduzir e continuar a espécie. Somos geneticamente 1,3% diferentes de um macaco. Ainda assim, eles conseguem matar menos que nós. Quem são os irracionais?

O que te diferencia de uma onça ou de um corvo? Eles fazem exatamente o que nasceram para fazer e respeitam seus limites e a cadeia alimentar. Por que temos que nos achar tão superiores em relação aos outros animais? Se estiver pensando que é pelo fato de podermos falar e construir pontes, pense: qual é a quantidade de bosta que sai da sua boca diariamente e que não faria diferença alguma se não tivesse dito? Quantas pontes não te levam a lugar algum?

São quatro horas da manhã.

_____

Victor Rossi reside na Zona Norte de São Paulo. É piloto e amante do motociclismo. Viaja sempre que pode, sem motivo ou destino. Escreve quando tem um tempo livre e troca qualquer coisa por uma boa noite de pizza com os amigos. Ao som de Dio, Black Sabbath, Anathema e outras bandas clássicas de Hard Rock, tenta encontrar seu lugar no mundo e ajudar pessoas o máximo que puder.

quem é você?

por Victor Rossi

Só mais um número no RH da empresa, só mais um número de RG. Você não é nada sem seu comprovante de residência dos últimos três meses. Dane-se se você ganha bem, você precisa de nome, precisa dizer que sabe se endividar. Não, você não tem uma moto, o banco tem. Sua casa? Trinta anos pagando um monte de tijolo rebocado e economizando na conta de luz para não ficar no escuro. Você precisa ser alguém!
É incrível como um carro traz status, mais até que seu currículo ou seus anos de experiência em vendas e bagagem de viagens pelo mundo. Você não é nada sem um carro.

— É um professor renomado e anda de metrô? Cadê seu carro?

Você não é nada sem uma TV de LCD 42’’ Smart 3D. Você não é nada sem sua conta bancária no azul. Quanto mais cartão de crédito, melhor! Pagar é outra história.

Você acorda todos os dias pensando no amanhã e esquece o hoje.

— Hoje não posso gastar, tenho que pagar minha geladeira nova.

Não gastou comprando um engradado de cerveja para poder pagar sua geladeira. Ótima utilidade uma geladeira que não gela uma cerveja, não é mesmo?

Você coloca R$ 10 de gasolina ou vai de ônibus para o trabalho porque tem o carnê da moto para pagar — antes do vencimento, já que depois gera juros. O que nós somos sem números? Nós somos números. Somos um sistema de gerenciamento que não distingue amor, dor, necessidades e muito menos afeto. Nós somos só números e estamos esquecendo do principal.

_____

Victor Rossi reside na Zona Norte de São Paulo. É piloto e amante do motociclismo. Viaja sempre que pode, sem motivo ou destino. Escreve quando tem um tempo livre e troca qualquer coisa por uma boa noite de pizza com os amigos. Ao som de Dio, Black Sabbath, Anathema e outras bandas clássicas de Hard Rock, tenta encontrar seu lugar no mundo e ajudar pessoas o máximo que puder.

leito 25

por Victor Rossi

Murilo tem 36 anos, é arquiteto de sucesso e tem sem próprio escritório na Zona Norte de São Paulo. Era noite de ano novo, 31 de dezembro de 2014, e ele estava com amigos e a namorada comendo e comemorando mais um ano de lutas e glórias até que algo inesperado aconteceu.

A cerca do quintal que ficava na parte de cima de sua casa quebrou onde ele estava apoiado e ele caiu.

Foram quatro cirurgias de remoção de coágulos no cérebro mais duas ortopédicas para reparar a fratura no braço esquerdo. Hoje ele está em estado vegetativo na UTI de um hospital de alto padrão na Zona Leste. Os pais largaram tudo o que tinham, venderam carro e pediram dinheiro emprestado no banco para suprir as despesas do hospital — o convênio parou de dar assistência ao ver o estado de Murilo. A namorada? Não preciso dizer nada.

É incrível como a vida dá com um mão e depois te estapeia forte na cara com a outra, seguido de um direto bem no queixo. Fico me perguntando se eu faço tudo que me deixa feliz, pois o Daniel era, tinha tudo e do nada, a única coisa que o mantém vivo são bombas de infusão de uma cama hospitalar confortável.

A história é baseada em fatos reais, claro que poupei detalhes e acrescentei algumas coisas. Só quero que tirem suas próprias conclusões, porque que não sou capaz de dizer nada sobre isso, não tenho uma opinião formada, mas posso dizer que olhar nos olhos perdidos dele me fez crer que isso é tudo que eu não quero para mim. Porque um dia você tem tudo e do nada você é só mais um num leito de hospital.

_____

Victor Rossi reside na Zona Norte de São Paulo. É piloto e amante do motociclismo. Viaja sempre que pode, sem motivo ou destino. Escreve quando tem um tempo livre e troca qualquer coisa por uma boa noite de pizza com os amigos. Ao som de Dio, Black Sabbath, Anathema e outras bandas clássicas de Hard Rock, tenta encontrar seu lugar no mundo e ajudar pessoas o máximo que puder.