esquecido

por Nicollas Conti*

Era em uma cama branca de hospital
Ele lembrava que era só isso que sabia
Era por causa do Alzheimer, o tal do mal
E pouco a pouco sua vida se esvaía

Sua mente estava branca como o branco ao redor
Seu coração estava brando como a falta do amor
Suas memórias — um fardo solto em algum canto
Suas lembranças — um nada escorrido em prantos

Ao ver-se no espelho, encarou sua alma
Ele era muito mais do que uma superfície enrugada
Pois todo humano nasce perdido no universo
E daquele espelho, ele só queria a si mesmo

Aos poucos, flashes vinham à sua mente
Um sorriso, uma música, uma noite inacabada
Uma voz “para todo o sempre”
Dita debaixo de uma noite estrelada

A porta abre — ele finge-se dormindo
Ela entra e beija sua testa
— Para todo o sempre, meu querido
A dona de sua memória — lá estava ela.

Com medo de estar sonhando, seus olhos estão fechados
Tem o coração pulsando, é de novo um jovem apaixonado
E nem se dá conta quando ela vai embora
Ele sonha os sonhos dos cegos de memória

Acorda em uma cama branca de hospital
lembrava que era só isso que sabia
“Onde está minha vida, afinal?”
Ele perguntou por isso todos os dias.

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

humano apesar de tudo

por Nicollas Conti*

Desde que te conheci
Recebi flores, e algumas dores
Que eu nunca vi
Passaram a me conhecer

Nem de perto era tão lindo
Mas éramos limpos
Nem preto nem branco, você dizia
Éramos cinzas no campo

Precisei queimar os olhos no sol
Para ver tudo esclarecer
Você queria enxergar, eu queria saber
Onde suas flores se encaixavam

Quando não se vê, você vê
E eu a vi extasiada
Matando um rato a pauladas, como sonhos
Humana apesar de tudo

A noite subia, eu me dizia
Não há nada para esquecer
Me ensinou muito mais do que podia aprender
Eu era, em todo canto, você

Vi que as dores ensinam, as flores espetam
E quando me deixou não houve espanto
Nada era preto, nada era branco.
Tudo era muito cinza.

Isso foi há muito tempo
Nem sei se ainda me lembro
Se você chegou mesmo a nascer
Ou se muito foi um sonho
Que eu quis fazer acontecer

Sei que eu sentiria tudo de novo.
Minhas dores estão em um vaso
Minhas flores, em pleno voo
Afinal sou mais que um velho gago.
Sou mais que um velho louco.

Humano apesar de tudo.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

o apagador de humanos

por Nicollas Conti*

Vou lhe dizer, filho,
Quando nós deixamos de viver
É um caso triste, obscuro
Algo que você não vai querer
*
Não é quando nós perdemos um amigo
Não é quando nos sentimos sem abrigo
E vou lhe dizer, filho,
Não é quando estamos prestes a morrer.
Quero que você saiba que
Não é quando perdemos a vida
Que deixamos de viver.
*
Você pode perder um braço
Pode perder as duas pernas:
Segue-se com sua vivacidade
Mas no momento em que tiram sua
Humanidade
Viver não é mais pra você.
*
O que mata os humanos
E não os permite morrer
É olhar nos seus olhos
Diante da miséria, corrupção e desigualdade
E dizer
“Não há nada que você possa fazer.”.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

constelação

por Nicollas Conti*

Vejam só aqueles pássaros brilhantes
Voam, brincam e dão rasantes
Quisera seu Zé ir tão distante
Mas Oh! Vejam só!
São apenas mísseis de longo alcance

Vejam Só! O Brilho do luar
Que seu Zé observa do quinto andar
E quanto mais o elevador sobe
Mais frustram seus olhos nobres
O brilho é mais outra bomba nuclear

Mas a Zé, as nuvens sempre foram encanto
Em seu céu abria-se esse manto
Ele podia sonhar,
Em seu âmago,
Crianças que não morriam em prantos

Vejam só! A nova fase lunar
Noite adentro o fogo vem queimar
Uma nova estrela debate-se no chão

As queimaduras alastram-se ao mar!
Bem onde o homem quer passar
Onde bombas brilham em constelação.

Seu zé fecha os olhos. Sonha com o sempre.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

pássaro azul

por Nicollas Conti*

— Xô! Sai, sai!

Olhava da porta do quarto o senhor Pôncio espantando o pássaro azul de perto da janela. Como de costume, todas as manhãs o pássaro aparecia com sua asa esquerda machucada, e todas as manhãs seu Pôncio mandava-o embora.

— Não quero que ele pie perto de mim! — se explicava mesmo antes de qualquer funcionário da casa de repouso chegar a perguntar. Ele era conhecido por todos no lugar como “O Rabugentinho”, visto sua perícia em maldizer tudo que seu olhar pudesse alcançar. Como eu era o que mais relevava suas reclamações, o pessoal acabava me colocando para cuidar dele.

O mais engraçado é que eu nunca ouvi aquele pássaro piar.

— Bom dia, seu Pôncio, hora do desjejum.

Ele se afastou da janela e olhou em minha direção, e eu já sabia que algum sarcasmo acompanharia suas palavras.

— Veja só, Olhos Pequenos, veio cedo hoje! Como trouxe meus ovos? Não os deixou queimar, certo?

— O senhor sabe que é mingau, seu Pôncio — e rapidamente o sorriso sarcástico saiu de sua boca, desabando na cama próxima à janela e cruzando os braços.

— Maldito asilo de merda, acham que eu sou doente! Doente fico com essa comida intragável!

Me aproximei da cama e coloquei a bandeja em seu colo. Corrigi-o de que a pronúncia certa era Casa de Repouso, e ele se divertiu achando-me inocente.

— Olhos Pequenos, a mídia disfarça as coisas colocando em tudo esses nomes bonitinhos — e em seguida se aproximou do meu ouvido, sussurrando como se me contasse um segredo — Olhe, pegue essas moedas e compre na padaria um quindim bem gordo para nós, sim?

Colocou em minhas mãos alguns Cruzados, e eu nunca cheguei a contar que não aceitavam mais esse tipo de dinheiro. Recusei a oferta e saí explicando que estava atrasado para cuidar do refeitório, e seu Pôncio aceitou a desculpa. Afinal, detestava aquele lugar, e sempre que tinha chance o evitava, então eu me encarregava de trazer a comida até ele.

*****

O mais curioso eram seus costumes.

Ele possuía, desde sempre, o mesmo livro em cima de sua cabeceira, e de tempos em tempos o relia, sem nunca procurar por uma nova leitura. Falava sobre teorias Epicuristas (desnecessário dizer que ele reprovava o pensamento do livro, e reclamava toda vez que o lia).

O velhinho quase nunca colocava sua dentadura, então ela era mais vista em um copo, flutuando, do que em sua boca. Salvo exceções de quando não estava almoçando ou precisando pensar muito — dizia que “ranger dentes ajuda mentes” —, ele se via livre com sua baba.

Mas, mais do que tudo, seu Pôncio divergia dos outros idosos do lugar, que geralmente não lembravam os nomes dos funcionários e chamavam a todos de “filho”. Não, a memória do senhor Pôncio era impecável. Ele não só lembrava de cada um dos funcionários como fazia questão de nos apelidar pelas alcunhas mais infames que encontrava. A Maria da cozinha era Bolonhesa, o Pablo da recepção era Nicarágua, a coordenadora Fátima era Olho Pelado (faltavam-lhe sobrancelhas). Tinha o Ranho, a Magenta, o Meia-Cueca, o Boca-de-Sapo, a Pesca-Pudim.

Eu era o Olhos Pequenos.

Logo que comecei a trabalhar na casa, o sarcástico velhinho me chamava de Moringa. Porém, em menos de um mês ele já se corrigiu, virando-se em minha direção para que eu pudesse entender:

— Veja, sua cabeça apenas parece grande, pois são seus OLHOS que possuem uma distância muito curta entre si. Está tudo certo agora, Olhos Pequenos, não se preocupe — e daquele dia em diante passou a me chamar assim.

Alguns se ofendiam e se incomodavam, mas eu não. Eu até podia compreender o porquê seu Pôncio fazia aquilo. Na superfície poderia dizer que ele se divertia inferiorizando os outros, mas eu sentia que era algo a mais. Tinha a ver com solidão, com sentimento de abandono, com um amargor para com sua filha, que o deixou ali e nunca o visitou. Seu Pôncio nunca sequer mencionou o assunto, impunha a si mesmo uma imagem de ser inabalável, porém ficava nítido o desconforto quando outros idosos recebiam suas visitas, e ele os observava da janela. Enquanto ocorriam os horários de visita, eu levava um jogo de damas para seu Pôncio e nós jogávamos até ele se encher de minhas vitórias, ou dormir durante a partida. Nos dias em que ele estava mais calado, eu sutilmente deixava-o ganhar.

Em uma dessas partidas, após um tempo calado, ele me perguntou:

— Olhos Pequenos, você tem algum animal?

A pergunta me tomou desprevenido, então tive que rememorar por alguns segundos antes de respondê-lo.

— Ahn, sim, seu Pôncio, tenho dois gatos, e o senhor? — a maneira inconsciente como eu repliquei me fez querer consertar a pergunta, se fosse possível apagá-la, de modo que não trouxesse nenhuma memória para ele — Quero dizer, quando o senhor, sabe, antes, do senhor, ér…

— Eu tive um.

Ele encarou por alguns segundos o nada, antes de completar.

— Estou há bastante tempo aqui, nessa espelunca abatida, então sei que não está mais vivo. Inclusive fugiu de mim uma vez, pra nunca mais voltar. Era um pássaro.

*****

Acredito que nosso senso de humanidade está intimamente ligado à nossa capacidade de nos reconhecer no outro. Basta imaginar a tormentosa possibilidade de ser o único humano a não poder morrer, em vez da reconfortante ideia de alguém mais o ser junto a você.

Naquela conversa, o senhor Pôncio me explicou em poucas palavras porque ele afastava o machucado pássaro azul para longe. Não queria encontrar intimidade para depois tal animal abandoná-lo como o outro abandonou, ou como sua filha o fez. Mas, afinal, somos seres humanos, e o apego não somos nós que podemos decidir. Seu Pôncio achava que não víamos, mas ele colocava um copo com água e açúcar na janela, encobertado pela cortina, e então esperava pelo pássaro, que vinha todos os dias. Mas não para sempre.

*****

Um dia, entre o horário do almoço e o lanche da tarde, vi o senhor Pôncio andando com seu livro aberto, lendo e reclamando de seu conteúdo, como sempre. Contudo, não acredito que alguém além de mim percebera que eram reclamações diferentes das rotineiras, consideravelmente mais estridentes, e um quê de chamativas. Aquilo se estendeu por toda a tarde, até que meu turno acabou e não acompanhei-o depois disso. Como o dia seguinte era domingo, dia da minha folga, também não compareci.

Só na manhã seguinte fui descobrir o motivo de sua inquietação.

Estava preparando o mingau na cozinha, quando Pablo “Nicarágua” veio entrando aos tropeços e chamando por mim.

— Você tem de ir até o Rabugentinho! Encontramos ele desacordado no chão do pátio!

Pediram então para que eu o acordasse, sabendo de antemão que comigo a reclamação seria menor. Levei-o até seu quarto e o deitei calmamente. Ao lado da cama havia duas refeições intocadas. Pela comida, vi que eram do almoço e a da janta, e me perguntei quem foi o energúmeno que trouxe a janta sem ver (ou pior, sem se importar) que ele não havia comido nada da comida anterior.

Seu Pôncio acordou e pediu para ficar a sós comigo, e então me olhou com uma expressão de alívio.

— Não é que quase enganei a safada?

— A quem enganou, seu Pôncio?

— Aquela maldita, chegada dos mais moribundos e dos senhores como eu. Ninguém sabe quando chega sua hora, mas eu sei. Oh sim, me lembravam disso todo o dia.

Na hora é claro que não entendi uma palavra, mas, mais tarde percebi que se referia à Morte. Ele me pediu que eu o trouxesse um suculento quindim, e quando respondi que isso não era possível, ele se limitou a querer um copo d’água.

— Com açúcar, sim?

Fui até a cozinha sabendo que aquele copo não seria para ele.

O que será que havia dado nele? Será que andou pensando muito no passado? Será que estava querendo chamar atenção? Era provável, afinal, dois dias antes reclamava como nunca, para todos os ouvidos. Enquanto eu pegava a água, tentava refazer os passos de tudo que havia acontecido, o que poderia tê-lo alterado, e me dei conta de que naquele dia o pássaro azul não havia surgido em sua janela. Estranho como no momento aquilo não tinha me tomado atenção. Seria isso então?

Não pude chegar a perguntar para ele. Quando cheguei ao quarto novamente, vi seu Pôncio morto.

Corri até ele deixando o copo espatifar-se no chão. Ele poderia estar dormindo, mas eu sabia que havia se matado. Vi um pote em seu colo com alguns medicamentos caídos, totalmente restritos para ele. Com certeza tinha tentado isso lá no pátio, e agora o fez com uma dose maior.

Xinguei-o por ser um velho burro e inconsequente, mas no fundo me perguntei se eu aguentaria tanto tempo.

*****

Três dias depois, após a confirmação de sua morte, tomei coragem suficiente para ir até seu cômodo esvaziar suas coisas. Novas pessoas chegariam. Entretanto, eu não desejava naquele momento outra pessoa além do senhor que sonhava com quindins. Era contraditório: aquele que atazanava a todos e que a todos repelia, deixou uma calma soturna no lugar. Não se ouvia muito barulho e, principalmente, não se ouvia reclamações.

Seu Pôncio não tinha muito pertences: alguns pouquíssimos pares de roupa, uma escova, um único par de sapatos. Em sua cabeceira vi a dentadura mergulhada no copo, e me recordei das vezes em que, no meio da partida de Damas, ele a colocava.

— Chega de pegar leve contigo, Olhos Pequenos! — por pirraça eu sempre perguntava de que aquilo adiantaria — Ranger dentes ajuda mentes, sim?

Em baixo do copo estava o livro Epicurista. Eu nunca tinha pegado aquele livro, e o velhinho ciumento nem permitiria isso. Então eu o abri e comecei a folhear, e, para minha surpresa, marcando uma das páginas estava uma foto da sua família: sua mulher, sua filha, e ele próprio mais jovem. Em uma das mãos segurava uma gaiola, que continha um pássaro azul. Mesmo na foto, se via a asa esquerda machucada do animal.

No susto deixei o livro cair no chão, mas depois me recompus e coloquei-o de volta. Com a foto em mãos, fui até a janela de seu Pôncio, e olhei para cima.

Engraçado, naquele momento jurei ouvir um pássaro cantar.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve quinzenalmente às segundas.

falta luz

por Nicollas Conti

Finalmente chego em casa, e me parece que meu santuário consegue livrar todo o peso dos meus ombros. Pego a última cerveja da geladeira, e sinto cada gole destravando o que ficou preso à garganta ao longo do dia.

“Que todos se fodam”, penso enquanto mijo de porta aberta. Fico mais aliviado pela porta aberta do que pela bexiga vazia. É uma paz morar sozinho. O inferno são os outros. Li essa frase numa banca. Algo do Caetano, se não me engano.

Em nome da liberdade, não dou descarga. Convenço a mim mesmo que aquele ato seria em prol da sustentabilidade. Pra salvar o mundo não precisa de muito.

De tão cansado, me esqueço de comer. Desabo no sofá e tão logo ligo a TV. Seu barulho me fornece companhia.

Não sei se por conta das risadas vindas do programa ou da penumbra que surge contra a luz, a situação me faz pensar no rumo que minha vida estava seguindo.

Trabalho há dois anos numa distribuidora de bebidas, mas sou formado em direito. O que ainda me motiva é saber que lá pago mais barato pela breja, então vale a pena.

Seguir com direito nunca foi uma opção minha, a faculdade foi um sonho dos meus pais, que se empolgavam toda vez que eu ia engomadinho pra aula.

No meio dos pensamentos, e substancialmente do nada, vem a imagem da minha Clara, que morou comigo até mês passado. Na verdade não é mais minha, saiu daqui para se tornar minha recém “ex que seguiu com a vida”.

“Que eles todos se fodam!”, digo em voz alta para ouvir ecoar as palavras. O programa de comédia tinha acabado e havia começado um filme arrastado com diálogos difíceis. No momento em que levantei para procurar o controle e mudar de canal, a TV fica toda preta e escurece completamente o cômodo.

— Mas que merda… ? — tateando o sofá eu acho o controle, mas ele não liga a TV. Me levanto, bato com a canela na quina da mesa, xingo todo mundo, e clico no interruptor da luz, que também não clareia nada.

“Acabou a luz”.

Precisei de um quarto de minuto para lembrar onde eu deixava as velas, e fui me escorando nas paredes até a cozinha, amaldiçoando a bendita sorte que eu tinha. Não dá para dormir sem o barulho da TV. Era um hábito que Clara desaprovava, mas ela sempre me esperava roncar para então desligá-la.

“Ela suportava minhas manias”, e isso me fez pensar o quanto ela era radiante quando sorria, principalmente se o motivo eram minhas piadas ruins.

Mas, dane-se, vamos às velas. Abri as gavetas do armário e comecei a revirá-las, sem sucesso algum. Houve um momento em que cravei a mão no abridor de lata, e um palavrão instantâneo preencheu a casa. Joguei aquela desgraça pra longe e continuei procurando, até encontrá-las dentro de um copo de vidro. É engraçado como na escuridão aquilo me pareceu esquisito e fora do lugar, nunca havia pensado que Clara poderia estar certa quando me acusava de minhas bagunças e meu jeito desorganizado. “Ela era um saco, agora eu mijo de porta aberta”. Mas naquele momento pareceu uma vantagem extremamente vazia e sem forças.

E, como não podia ser diferente, os fósforos não estavam junto às velas. Mas quanto a isso eu tinha uma ideia mais concreta de onde estariam. Lembrei-me de um dia enquanto cagava em que utilizei os fósforos para me distrair, tentando acendê-los o mais rápido possível contra a caixinha.

Tateei até o banheiro e fui direto ao espelho que possuía um espaço interno para guardar objetos. Senti as escovas, pasta, gilete, sabonete… E lá estava a caixinha com fósforos. Vibrei com minha conquista e logo peguei um palito para acender a vela que eu segurava, e dane-se que a cera cairia na minha mão, eu apenas precisava de uma luz. Risquei contra a caixa, mas nada aconteceu. Joguei esse no chão e peguei outro, que também não funcionou. A cada fósforo que tentava eu me desesperava mais, principalmente por perceber que todos aqueles já tinham sido usados naquela vez da cagada.

— SEU BURRO, BABACA! MERDA! — Taquei a caixinha no chão, chutei o bidê e tentei ignorar a dor, que logo me invadiu. Nesse chute desequilibrado eu caí de mão na privada, que mesmo no escuro lembrei que não havia dado descarga.

Me esgotaram os palavrões, então eu chorei.

Talvez de raiva, mas mais pela situação que me fazia pensar o quão inútil eu era. O quanto Clara estava certa, o quanto meus pais poderiam estar certos, e o quão inútil eu era. Eu queria Clara novamente dizendo que eu era irresponsável e me amando e deixando toda minha vida com sentido. Nossa relação terminou com uma discussão, parecida com todas as anteriores, com ela falando e eu ignorando, meu ouvido preenchido pelo meu orgulho, meus olhos não vendo que ela estava indo irreversivelmente para longe.

Ao me sentar do lado da pia, sinto a gilete caída perto de mim. Seguro-a de maneira leve, pesando o quão indiferente seria minha saída deste mundo. Aponto-a para os pulsos, depois para a garganta. Simultaneamente a pensamentos desconexos (como o que aconteceria se me encontrassem com a cara no mijo), eu penso nela. Se ela entrasse por aquela porta nesse instante, eu a abraçaria e suplicaria todo meu perdão;  como a uma deusa, ou mais do que isso; pediria as contas e trabalharia com o que gosto (foi o que ela sempre me disse pra fazer); sentiria de verdade o que é estar vivo ao seu lado.

Na minha frente estava apenas o corredor escuro, e na minha mão a ferramenta pro meu fim. “Que meu orgulho ao menos não me impeça de fazer isso”. Dou uma última olhada para a porta da casa, esperando que ela viesse e me resgatasse, como sempre. A porta permaneceu inalterada.

Eu separo a lâmina do cabo, fecho os olhos. Encosto no pescoço.

A luz volta.

Ouço o barulho de uma música comovente vindo da televisão, e vejo a luz da sala acesa com o interruptor que mexi. Ligo a luz do corredor após lavar minhas mãos e arrumo a bagunça que estava no chão da casa. Durante toda a limpeza, eu me permito não pensar nas coisas que haviam ocorrido.

Quando chego para limpar a sala, o telefone toca. O síndico Rodriguez me liga falando sobre a queda parcial de energia no condomínio.

— […] E aí metade do seu bloco ficou apagado. E o senhor, como está? A luz voltou completamente?

E sua pergunta traz às claras o que eu deveria fazer nesse momento. Iria pegar minha jaqueta, sair dali naquele instante, e visitar uma pessoa em especial.

— Seu Rodriguez, agradeço a preocupação. Fiquei bastante tempo sem luz, e não pretendo continuar assim nem mais um segundo.

Desliguei o telefone, peguei minhas coisas, abri a porta de casa. Antes de sair de lá, com a mão no interruptor, olho bem para dentro do aposento. Ainda que todo iluminado, eu sabia:

“Falta luz aqui”.

sobre a liberdade

(sobre = em cima de)

por Nicollas Conti

Não me dê Liberdade
Deixe-me por minha sorte
Tal como eu, você sabe
A única liberdade é a morte

Você é preso em opiniões
Do útero à maturidade
Quando já engasga em convicções
Sai semeando sua insanidade

Você é réplica de sua geração
Não compreende o olhar passado
Tal como ele não enxerga à frente
E assim o ciclo é replicado

Você é um corpo encarcerado
Preso na busca de reconhecimento
Não há beleza, fama ou estrago
Que vá amortizar seu sofrimento

Há a prisão das palavras,
Das emoções, da cultura;
Mais do que tudo, a prisão da alma,
Que a tudo perdura.

Escolha bem suas sinas
Aceite sua calamidade
Veja só, as minhas são as rimas
E a eterna fuga da liberdade.