transtorno

por David Plassa

sonhou alto deitado no asfalto
lamentou baixo
aos carros que passavam sem ternura
aos transeuntes
que reparavam apenas no buraco ao seu lado

agarrou-se ainda a um desejo maior
não ser tragado
o que parecia impossível
tamanha a força da manhã
a desmoronar sobre todo e qualquer movimento

não tinha planos
apenas sonhos espalhados ao redor
fugidios vez ou outra
sob solas indiferentes de sapatos
ou a escorrerem pelo buraco

assim, sentiu-se fraco
o corpo pesado e arrastado
escuridão adentro
fechando os olhos atrás de luz
pequenas chamas bruxuleantes
da mais pura melancolia

deitado sobre o asfalto
como uma oferenda às circunstâncias

das ruínas que você deixou

por Marcia Dantas

Queria poder dizer que a aceito de volta em minha vida. Mas não posso, quando foi por sua causa que me vi em meio às ruínas que me cercaram e quase me engoliram por completo.

Você não olhou para trás daquela vez. Não se importou. Sequer hesitou; apenas partiu, deixando-me destruída, abandonada, sem saber o que fazer. Vi apenas a poeira que subiu dos seus passos apressados, e então soube que cairia num abismo profundo, que me tragaria sem misericórdia. Temi, sofri e nunca pude pedir socorro. Você era a única em quem confiava para me salvar desse lugar tão assustador onde fiquei. Mas já não a tinha por perto, então o que faria?

Tive que encarar a verdade de que dependia apenas das minhas forças. Precisava que meus pés aguentassem o peso de meu corpo, sustentassem meu levantar e guiassem os passos que precisava dar para longe daquelas ruínas que desejavam me prender naquele abismo.

E você nunca soube onde me deixou.

Muitas vezes pensei em você e tentei imaginar por onde andaria. Mas, principalmente, tentava adivinhar se alguns de seus pensamentos eram para mim. Em certos momentos não tinha dúvidas que sim, que eu estava em sua mente e que, mesmo a crueldade da sua partida não tinha destruído aqueles sentimentos que você dizia ter por mim. Em outras ocasiões apenas percebi que você nunca poderia ter me amado de verdade. Afinal, como você poderia me deixar daquela forma, sem sentir remorso algum?

Foi nesse momento em que percebi que talvez eu tivesse superestimado meus próprios sentimentos.

Não posso negar, você foi importante demais em minha vida e povoou meus pensamentos muito tempo depois de ter partido. E, agora que nos reencontramos, não consigo ignorar que ainda tem uma parte de mim que não consegue ser indiferente à sua presença ou ao modo que ainda olha para mim, mesmo depois de todo esse tempo. Mas não é a mesma coisa, não mais. Algo se desfez naquele dia, quando a vi partir tão rápido, me deixando para trás.

Você se desfez dentro de mim e tudo o que sobrou foi o modo com que recomecei depois que me vi nas ruínas sem você.

Não, por favor, não ouse dizer que se arrependeu de ir embora e me deixar para trás. Suas palavras já não me tocam, suas mentiras já não me convencem mais. Uma parte de mim queria acreditar, confesso, e retomar algo que ficou perdido lá atrás, no meio das ruínas, e que nunca consegui recuperar. Mas passou, foi embora, e já não vejo como recuperar o que havia entre nós.

Saiba que consegui me recuperar e que fico feliz em poder mostrar a você o que consegui. Fiquei mais forte e já não me deixo mais cair naquele abismo que abandonei. Estou bem e continuarei assim, tenho certeza. Só não posso permitir que entre em meu coração uma vez mais.

Apenas parta, por favor. Deixe apenas a poeira de seus pés. E seja feliz, pois eu também serei.

querida nina

por Ana de Oliveira

Acabou que não deu certo. Eu não vou mentir. Não deu certo, e nós sabemos. Mas eu não vim ditar o óbvio para você. Eu vim dizer ‘oi’ com gostinho de despedida. Eu vim ficar indecisa ao sair porta afora. Vim ficar entre o ‘sim’ e o ‘não’. Vim depois de ponderar demais, daquele jeito que você faz, na intenção de ser justa e de não machucar ninguém — aprendi isso com você.

Eu nunca soube me despedir das pessoas. Nunca aceitei partidas que não fossem de acordo com nossas vontades, acho que você sabe disso. Nunca fui de me conformar. E não vai ser agora que irei fazê-lo. É exatamente por isso que esta carta de despedida não pode se parecer como se fosse uma. Precisa se parecer como uma pergunta inocente sobre como você está.

Acima de tudo, quero que você seja feliz, de verdade. Quero que consiga alcançar tudo o que quer e que não alcançou por alguma mudança de planos. Quero que o anel no seu dedo ainda signifique alguma coisa mesmo depois de muito tempo. Mesmo que você acabe perdendo-o, pelo desgaste ou pela distração. Quero ainda ter a chave do seu coração. Só pra ficar guardado mesmo. Só pra ter o título de alguém que é motivo de seus sentimentos. Porque eu sei que não é justo que eu queira mais uma chance depois que o tempo passar. Eu sei que não devo fazer você dar marcha à ré. Vou me contentar, então, em ser aquela que você mais amou.

Eu sei que está parecendo que vou morrer ou que nós nunca vamos nos falar novamente. Mas isso é só um backup, para ter certeza de que você sabe de tudo. Você precisa saber de tudo. Precisa saber que eu irei te carregar comigo da mesma forma que levo seu colar pendurado no meu pescoço. Eu não que nenhum mal-entendido nos separe da verdade e de uma vida que deve ser vivida sem interrogações ou arrependimentos.

E só para constar, eu entendi a mensagem disso tudo. Sei que não somos menos uma história de amor do que outras só por termos um fim. O que acontece é que, talvez, nossa história fosse muito curta para ser vivida numa vida inteira. Talvez, não coubesse. Entendi que livros com menos de cem páginas também possuem coisas relevantes a dizer. Você tinha muitas coisas a me ensinar, não importasse como fossem elas, quanto fossem ou quanto tempo você ficaria.

Ainda tenho medo do futuro, eu confesso. Sei que somos nós que o fazemos. E é justamente por isso que temo. Eu sempre fiz besteiras, você sabe. Sempre atirei antes de mirar. É por isso que essa carta é tão importante, Nina. Essa carta é o botão de emergência. Eu sei que ela pode não valer muita coisa daqui uns anos, por conta de nossas mudanças. Mas eu peço, encarecidamente, que a considere vitalícia. Dificilmente você sairá de mim. [Quase] Impossivelmente me esquecerei de você.

Portanto, tudo aqui escrito serve como resposta e base para você tirar suas conclusões. Não importa o quanto eu mude ou cresça. Não importa o que aconteça, quantos sonhos eu ou você realizemos, quantas vezes ainda vamos cair ou chorar; não importa quantas pessoas ainda vão passar por nossas vidas, quantas de nossas certezas ainda serão mudadas. Não importa e jamais importará. São essas palavras que valem, pois foram escritas no auge da minha razão. O que conta é o que somos agora. Porque se terminamos isso hoje, vou terminar assim, com essas palavras, mais válidas do que qualquer outra coisa que eu tenha dito. Releia sempre que se perguntar se eu ainda a amo. Porque eu ainda te amo.

Só para diminuir seu medo, claro que vamos nos ver. Talvez a gente se esbarre e comece a trocar palavras sobre os anos que nos separaram. Talvez eu te convide para um café e proponha a loucura de embarcar comigo outra vez como foi agora — só que melhor. Talvez eu preserve tudo isso e não queira mexer em nada. Mas não se preocupe, iremos ficar bem no final das contas, seja como for.

Obrigada pela paciência, pela perseverança, por ser minha heroína. Por me salvar incontáveis vezes, por aceitar me amar mesmo de longe. Pela sabedoria que eu jamais alcançaria sem você, pelos sorrisos em meio ao caos. Obrigada por brigar com quem brigou, por chorar quando não aguentou e por ser sincera quando precisou. Finalmente eu sei como é amar. Sei como é a sensação. Está longe de ser o que eu achei que seria, mas é bom ainda assim. Amar é estar com o outro impregnado e tatuado. Amar é se sentir sortudo mesmo de longe; é ser parte de alguém. Obrigada por me deixar ser parte de você. Principalmente por ter sido uma de suas poucas certezas. Nunca conseguirei agradecer o suficiente, mas não me sinto mal com isso. Faz parte do conjunto que recebi quando me dei conta de que amava — e amo — você, o suficiente para aceitar que não me livrarei da nossa história.

Mais experiente e paciente do que antes, eu.

ps. Só pra você saber: ‘Stolen Dance’, do Milky Chance, é a nossa última música.

o amanhã que nunca chega

por Gabriel Fogal

Às vezes me pego
Cantado no banho
apaixonado pelas melodias
Mais psicodélicas que nunca escutarei
Nas noites mais frias
Você sussurra orações
Pedindo para que eu continue
Sólido
Estamos procurando um lugar
Para repousar nossos sonhos
Mas achamos que nunca o encontraremos
Desesperados pelo futuro
Que não espera por ninguém
Esperamos a nós mesmos
Para chegar lá

mãe do mundo

por Caê Jansen

ela te cria e te molda
te ensina o certo e o errado,
pra ela,
brincadeira de polícia e ladrão real
comédia romântica e filme de ação

canalha
dona da desinformação

a nova mãe de todos
te mostra do mundo apenas o que quer
e te faz acreditar em meias verdades
ou mentiras completas
de uma programação homogênia
tudo da mesma merda repetidamente
o mesmo lixo o dia inteiro

hipnotiza crianças e adultos
“como é bom consumir e ao sistema servir”
manipulando tudo a sua volta
se torna a dona da verdade
induz o comportamento coletivo
“beba isso
se vista assim
se indigne por aquilo
pense nisso
na verdade, não pense”
deixe que ela faça isso por você
pois uma cabeça pensante
incomoda mais que um elefante
e todos sabemos:
um elefante incomoda muita gente
dois elefantes incomodam, incomodam muito mais…

não seremos calados dessa vez

por Marcia Dantas

Estou farta!

Da hipocrisia, de dois pesos e duas medidas,
Das palavras vazias, que refletem a ignorância.

Cansada dos retrocessos,
Dos passos vãos,
Dos esforços desperdiçados.

Esperei,
Perseverei,
Tive esperança.
Mesmo quando ela parecia vã.

Mas então veio o golpe,
O recuo,
E, mesmo diante da óbvia verdade,
Vi que tudo vinha na direção oposta.

Tudo era claro,
Mas os olhos se fecharam.

Tudo era simples,
Mas os ouvidos pareciam ignorar os sons
Que estavam lá
E se faziam presentes.
Sussurrando o que estava acontecendo.

Tudo foi ignorado,
E, desesperada, chorei
Quando vi que o mal estava feito.

Eu não era a única
Pois outros sentiam o mesmo
Ao ver sufocada a sua voz,
Ao ver os direitos retirados.

Então me uni a eles,
Nossas vozes juntas,
Gritando,
Berrando,
Mostrando que bastava,
Não iríamos nos calar.

Não dessa vez.

Agora bem sabemos
O silêncio foi rompido
E nossas vozes
Ecoam poderosas
Por todos os cantos.

Então não nos calaremos.

Romperemos o silêncio
E diremos o que não foi falado.
O que foi escondido
Será revelado.