irrealidade

por Nicollas Conti*

(1952)

1. Branco

O que mais me deixava louco naquele lugar era o teto.

Branco! Sem marcas, sem vida, apenas BRANCO! Malditos, como me querem ver são em um lugar todo branco? Tomam-me como louco, me botam em uma camisa de força (branca), me dão uma gosma pastosa (dizem ser de comer), me dão pílulas para acalmar, mas mantêm a desgraça do teto em branco. A única coisa que lateja na minha mente é chutar e roer as paredes até elas descascarem e mostrarem algo para mim, algo que não seja branco.

Eles também me dizem que a guerra acabou. Por verem-me nesse estado, acham que eu acreditarei em qualquer coisa que digam. Eles gostam de afirmar que a democracia venceu; que o mal maior está agora enterrado em Berlim. Pois bem, eu sei a verdade. Eu sei. Estão matando meu povo, pouco a pouco. Os linguiceiros invadiram a França, tomaram tudo que é nosso, e querem sair impunes. Deus sabe que venceremos, nem que eu tenha que expelir do mundo um alemão de cada vez. Se eu pudesse sair do quarto branco.

É incômodo como tudo passou de um intenso vermelho-rubro para um lacerante branco-branco-branco. Eu estava lá. O front era pálido, nossas rações vinham pálidas, o uniforme era pálido, e ainda assim tudo pulsava o vermelho-rubro. Eram meus amigos, minhas vozes! Todos ecoando a liberdade que queriam, segurando armas em uma mão e a grande nação na outra. Como foi que vim parar aqui?

Da outra extremidade do cômodo, a porta se abre.

Por apenas um relance, consigo enxergar o lado de fora do quarto. Não era branco. Um desespero subiu pela minha espinha, tive uma ânsia incontrolável em perceber que eu continuaria naquele lugar, preso em minha camisa de força.

Me debati durante a eternidade na minha cama. O vulto que havia entrado pela porta me aguardou pacientemente sentado ao meu lado. Minhas forças cessaram, uma única lágrima surgiu no meu olho, começando como raiva, mas ao que escorria pela bochecha, virou depressão.

Olhei então para o lado e vi a jovem médica, vestindo você-já-sabe-a-cor, me observando, inexpressiva. Ao perceber meu olhar, ela sai de seus pensamentos e me dirige a palavra. Há em sua voz uma calma contida, cada palavra sendo pausadamente enfatizada. Sua postura corporal ereta mostra um grande autocontrole, mas senti que não era natural.

— Você me reconhece, senhor Valentin?

— Sim, você é a Putaelle, uma das desgraçadas que me colocou nesse quarto.

— Não.

Ela esperava por aquela resposta, mas isso não a fez ficar menos decepcionada.

— Eu sou Emmanuelle, senhor Valentin. Eu estou aqui para te ajudar.

Me ajudar, ela diz. Aquilo ecoa em meus ouvidos como um toque anti-mentiras sendo soado. É engraçado como seu tom até faz parecer ser verdade. Com dificuldade, me sento para ela. Sua cadeira é tão alta quanto os pés da cama, então a vejo cara a cara.

— Se você quer mesmo me ajudar, por favor, me tire daqui.

Falo a mesma frase há anos, quem sabe dessa vez ela sinta o que eu sinto?

— O senhor não faz ideia do quanto eu desejo que isso aconteça, mas tenho que ter um diagnóstico comprovando sua sanidade.

Sanidade!

— Por acaso não a vê em mim? Me vê roendo paredes? Ou chutando-as? Não quero que esse quarto seja a última coisa que verei na vida! Peço-te, doutora, me deixe livre!

Ela parece digerir minha última afirmação com a mesma calma que havia em sua voz. Olhou para baixo, como se pesasse cada palavra, mesmo eu descrevendo exatamente minhas vontades contidas. No fundo eu quase não a odiava, mas sabia que tinha de odiar, pois acompanhava meu sofrimento todos os dias e, ainda assim, me mantinha enclausurado no quarto. Ela via o que eu era: um ponto desesperadamente solto no meio do branco inerte.

Ela levantou o olhar e aquele autocontrole voltou à sua postura.

— Sua família, Valentin. Recorda-se deles? Se sair daqui, irá visitá-los?

Havia uma coisa que eu odiava quase tanto quanto o teto em branco: o modo como me faziam duvidar de minha memória. Ela faz-me crer que possuo uma família, pessoas vivas que aguardam meu retorno. Putaelle discorre para mim toda santa semana as mesmas informações, os mesmos discursos, e no começo repreendi cada mentira. Mas, depois de tanto tempo… Será que eu me esqueci de algo? Não pode ser. Era algo incogitável, não se esquece da família. Minha mulher morreu na invasão, com os alemães. Lembro-me da cena, foi a primeira vermelho-rubro da minha guerra. Nunca tivemos filhos. Uma coisa era bem certa, eu precisava entrar no jogo dela se eu quisesse sair de lá.

— Me recordo deles.

— Então irá visitá-los? Irá abraçar sua filha? Irá deixar a guerra para trás?

Tantas perguntas descabidas; nenhum soldado, vivo ou morto, deixa a guerra para trás.

— Irei. Abraçá-la-ei como jamais fiz, e seguirei te agradecendo pelo resto da minha vida. E mais, não voltarei à guerra. Palavra de um herói da nação.

Abro um sorriso tão falso quanto qualquer palavra que saiu da minha boca. E ela? Só podia ser o demônio, percebera minha farsa na mesma hora. Dava para ver no modo como me olhava, cética da unha ao cabelo. Mas não terminou, fez-me uma última pergunta, olhando em meus olhos, uma pergunta que jamais poderia responder corretamente.

— Qual o nome dessa filha, senhor Valentin?

Odeio-te, Putaelle.

— Marie?

Com a resposta, ela se levanta da cadeira, arrastando os pés metálicos contra o chão. O olhar, baixo, permaneceu assim mesmo depois de se virar para ir embora. Ela era minha esperança, desgraça, minha única conexão com o mundo não-branco. Gritei enquanto avançava para cima dela, desejando ter algo para falar, algo que a convencesse de que eu não era louco, apenas uma peça de quebra-cabeça longe da caixa. Nesse intuito, meus pés amarrados traíram meu movimento, e eu desabei ao chão. Subi a cabeça para vê-la, aguardando a porta ser destrancada pelo lado de fora.

— Eu não tenho filha, Putaelle, sua desgraçada! Nunca tive uma! Nenhum nome iria te satisfazer, não é? Sou um prisioneiro de guerra aqui, esperando pelo abate, enquanto vocês se divertem com meu desespero, não é mesmo!? Não é? OLHE PRA MIM!

Seu olhar permanece baixo, e tenho a impressão que ela não me ouve mais. Tantas ânsias passam por mim, um sentimento de impotência que apenas os que caem na hora errada podem desfrutar. Não há como sair. Nunca houve.

— Por que vocês mentem sobre a guerra? Eu ouço toda a porra de noite os gritos lá fora, os choros incontidos, as explosões!

Putaelle abre a porta.

— Por que não me mata, então? Livra-me da guerra! Pare de me visitar todos os dias se for acompanhar meu sofrimento!

Putaelle dá seus passos.

— Pelo amor de Deus, PINTE AS PAREDES! Emmanuelle!

A porta se fecha, sem que Putaelle tenha olhado para trás.

O silêncio preenche o cômodo. Quando Putaelle não estava, parecia que eu me encontrava no limbo, imóvel, aguardando os sons da guerra recomeçarem. Parecia viver em um transe, uma meia-vida onde nada mais acontecia. Apenas ela me visitava, durante todos esses anos. Nenhum outro doutor, nenhuma outra pessoa. Eu a odiava, mas por conta dela eu ainda me encontrava são. Ou seria o contrário?

Fora isso, era somente eu e o teto branco. O maldito branco.

Como foi que vim parar aqui?

2. Vermelho-rubro

Emmanuelle abaixou a cabeça para que o paciente não olhasse as lágrimas. Deve ter escondido bem, pois as primeiras só caíram no jaleco do doutor, que aguardava do lado de fora. Ela o apertou com força, desejando que o estado daquele que se encontrava no quarto fosse diferente.

— Ele não se lembra, doutor! Não se lembra!

Entre choros e balbucias, Emmanuelle foi dizendo tudo que havia ouvido do paciente. Para ele, ainda estavam em guerra. Para ele, não existia nada além do front, nem a família. Era como se estivesse preso no tempo. Há mais de sete anos.

A jovem sai dos braços consoladores do psiquiatra e se desculpa pelas emoções incontidas.

— Como foi a experiência, Emmanuelle? Ele está melhor?

— Está piorando, doutor. Vestir-me de médica também não acrescentou em nada para isso. Ele agora acha que eu o visito todos os dias, como que para sedá-lo ou dar-lhe pílulas, seja lá do que esteja falando.

O doutor libera um suspiro. Emmanuelle deduz ser de desapontamento com o paciente, senhor Valentin, e sua aparente regressão.

— Isso só me faz perceber que não posso abandoná-lo agora, doutor, no momento que ele mais precisa de mim.

— Emmanuelle… — o psiquiatra já havia sugerido isso sutilmente para a jovem garota, mas agora tomou coragem e reforçou — O senhor Valentin precisa ir, você precisa deixá-lo ir. Não há nada que possam…

— O que está sugerindo, doutor? Matá-lo a sangue frio? É assim que trata seus pacientes? Eu não acredito que me sugere livrar-me da minha própria família! Pois ouça bem, não deixarei vocês tirarem-no desse quarto! Me ouve? Não deixarei!

Emmanuelle afasta-se do quarto de número 10, onde se encontrava Senhor Valentin. Ela segue o corredor até virar à esquerda, em direção à recepção, fazendo o doutor perdê-la de vista. A jovem pede suas roupas e utiliza um quartinho para se trocar. Retira do corpo a vestimenta de médica com certa repugnância. Conselho oferecido pelo doutor, de se fantasiar para testar o reconhecimento do paciente.

Meu pai não precisa de fantasias, mais mentiras para alimentar sua loucura. Ele precisa da filha. Talvez o leve para alguma outra psiquiatria.

Pensou sem convicção, sabendo da decadência de clínicas como essa. Colocou com cuidado seu vestido vermelho-rubro, presente do seu pai. Amava aquele vestido. Tratou de tocá-lo contra seu corpo, sentindo a suavidade e maciez que sempre possuiu. Antes de sair, pensou nos momentos com o pai em seu quarto. Deus sabe que ela procurou manter a calma o máximo possível enquanto olhava seu sofrimento. O que ela esperava, já fazia um bom tempo, era ouvir o quanto ele a amava, o quanto a queria por perto. Hoje ela possuía 21, mas foi com 10 que viu seu pai indo à guerra, para depois voltar sem que se lembrasse de outra coisa que não o front de batalha. Não teve tanto tempo para sentir o que era um pai ao lado, fora sofrendo em silêncio esperando por seu retorno, dia após dia.

Em um súbito pensamento, lhe veio a clareza de que as pílulas que seu pai tomava estivessem deteriorando sua mente. É isso! O doutor, cansado de investir tempo e dinheiro num louco, está piorando sua saúde mental, para poder finalizá-lo sob algum argumento incontestável. Para isso, tinha que convencer a filha do louco. Mas agora estava claro, isso nunca aconteceria. Nunca. Seu pai não sairia do quarto, e nem doutor nem ninguém o tiraria de lá, sem antes ela o ajudar com sua lucidez. Amanhã seria um bom dia para ela se livrar do psiquiatra, para sempre.

Emmanuelle saiu do quarto, a mente determinada em sua certeza. Do lado de fora, uma assistente aguardava para conduzi-la para o quarto 9. Não houve oposição. A jovem chegou ao quarto e desabou na cama. De tão cansada, dormiu sem tirar seu vestido vermelho-rubro, que usava há mais ou menos sete anos.

3. Pálido

O trabalho de um psiquiatra é delicado. Precisa-se analisar cada comportamento, cada amostra do que seu paciente oferece a você. De maneira meticulosa, deve-se interpretar a loucura que se tem disponível. Você mesmo torna-se louco, para assim solucionar o quebra-cabeça mental que esconde a sanidade.

O doutor enxergava diversas simbologias no que era oferecido a ele. A começar pelo quarto. Foi até lá, destrancou-o e escancarou a porta antes de acender a luz. Como era de se esperar, o quarto estava vazio, abandonado em sua palidez. Fazia muitos anos que nenhum paciente era direcionado ao quarto 10, vítima da decadência que hospitais psiquiátricos começaram a ter no pós-guerra. Como resultado, o doutor via, parado na entrada do cômodo, um local empoeirado, coberto em teias de aranha e pedaços de parede descascada. Após espirrar duas vezes, o doutor trancou-o novamente.

Foi até sua mesa, retirou novamente da pasta uma ficha que continha os dados de um dos pacientes. Era assustador como ele podia se apaixonar por uma pessoa fora de si. Mas aconteceu. Ele a amava, na mesma proporção que ela delirava. Na ficha, lia-se seu nome: Emmanuelle. Patologia: distúrbio esquizofrênico.

Algumas conclusões incertas rondavam o estudo que o doutor fazia em cima da amada. Mesmo sabendo que seu pai morrera na guerra, era preciso suprir 11 anos de ausência do dito cujo, então interná-lo no mesmo lugar em que se estava internado parecia ser uma maneira razoável de visitar o familiar. Segundo as contas, faltavam mais 4 anos de visitas ao quarto branco. Por falar em branco, seria a cor que o quarto tomou por remeter aos céus, local onde a mente de Emmanuelle recusa-se a enviar o pai?

Ela é linda. E sincera em sua loucura, disso o doutor não tinha a menor dúvida. Talvez amanhã fosse um bom dia para ele confessar a ela o que sentia. Poderia ser lá mesmo, dentro do quarto coberto em sua palidez.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

pássaro azul

por Nicollas Conti*

— Xô! Sai, sai!

Olhava da porta do quarto o senhor Pôncio espantando o pássaro azul de perto da janela. Como de costume, todas as manhãs o pássaro aparecia com sua asa esquerda machucada, e todas as manhãs seu Pôncio mandava-o embora.

— Não quero que ele pie perto de mim! — se explicava mesmo antes de qualquer funcionário da casa de repouso chegar a perguntar. Ele era conhecido por todos no lugar como “O Rabugentinho”, visto sua perícia em maldizer tudo que seu olhar pudesse alcançar. Como eu era o que mais relevava suas reclamações, o pessoal acabava me colocando para cuidar dele.

O mais engraçado é que eu nunca ouvi aquele pássaro piar.

— Bom dia, seu Pôncio, hora do desjejum.

Ele se afastou da janela e olhou em minha direção, e eu já sabia que algum sarcasmo acompanharia suas palavras.

— Veja só, Olhos Pequenos, veio cedo hoje! Como trouxe meus ovos? Não os deixou queimar, certo?

— O senhor sabe que é mingau, seu Pôncio — e rapidamente o sorriso sarcástico saiu de sua boca, desabando na cama próxima à janela e cruzando os braços.

— Maldito asilo de merda, acham que eu sou doente! Doente fico com essa comida intragável!

Me aproximei da cama e coloquei a bandeja em seu colo. Corrigi-o de que a pronúncia certa era Casa de Repouso, e ele se divertiu achando-me inocente.

— Olhos Pequenos, a mídia disfarça as coisas colocando em tudo esses nomes bonitinhos — e em seguida se aproximou do meu ouvido, sussurrando como se me contasse um segredo — Olhe, pegue essas moedas e compre na padaria um quindim bem gordo para nós, sim?

Colocou em minhas mãos alguns Cruzados, e eu nunca cheguei a contar que não aceitavam mais esse tipo de dinheiro. Recusei a oferta e saí explicando que estava atrasado para cuidar do refeitório, e seu Pôncio aceitou a desculpa. Afinal, detestava aquele lugar, e sempre que tinha chance o evitava, então eu me encarregava de trazer a comida até ele.

*****

O mais curioso eram seus costumes.

Ele possuía, desde sempre, o mesmo livro em cima de sua cabeceira, e de tempos em tempos o relia, sem nunca procurar por uma nova leitura. Falava sobre teorias Epicuristas (desnecessário dizer que ele reprovava o pensamento do livro, e reclamava toda vez que o lia).

O velhinho quase nunca colocava sua dentadura, então ela era mais vista em um copo, flutuando, do que em sua boca. Salvo exceções de quando não estava almoçando ou precisando pensar muito — dizia que “ranger dentes ajuda mentes” —, ele se via livre com sua baba.

Mas, mais do que tudo, seu Pôncio divergia dos outros idosos do lugar, que geralmente não lembravam os nomes dos funcionários e chamavam a todos de “filho”. Não, a memória do senhor Pôncio era impecável. Ele não só lembrava de cada um dos funcionários como fazia questão de nos apelidar pelas alcunhas mais infames que encontrava. A Maria da cozinha era Bolonhesa, o Pablo da recepção era Nicarágua, a coordenadora Fátima era Olho Pelado (faltavam-lhe sobrancelhas). Tinha o Ranho, a Magenta, o Meia-Cueca, o Boca-de-Sapo, a Pesca-Pudim.

Eu era o Olhos Pequenos.

Logo que comecei a trabalhar na casa, o sarcástico velhinho me chamava de Moringa. Porém, em menos de um mês ele já se corrigiu, virando-se em minha direção para que eu pudesse entender:

— Veja, sua cabeça apenas parece grande, pois são seus OLHOS que possuem uma distância muito curta entre si. Está tudo certo agora, Olhos Pequenos, não se preocupe — e daquele dia em diante passou a me chamar assim.

Alguns se ofendiam e se incomodavam, mas eu não. Eu até podia compreender o porquê seu Pôncio fazia aquilo. Na superfície poderia dizer que ele se divertia inferiorizando os outros, mas eu sentia que era algo a mais. Tinha a ver com solidão, com sentimento de abandono, com um amargor para com sua filha, que o deixou ali e nunca o visitou. Seu Pôncio nunca sequer mencionou o assunto, impunha a si mesmo uma imagem de ser inabalável, porém ficava nítido o desconforto quando outros idosos recebiam suas visitas, e ele os observava da janela. Enquanto ocorriam os horários de visita, eu levava um jogo de damas para seu Pôncio e nós jogávamos até ele se encher de minhas vitórias, ou dormir durante a partida. Nos dias em que ele estava mais calado, eu sutilmente deixava-o ganhar.

Em uma dessas partidas, após um tempo calado, ele me perguntou:

— Olhos Pequenos, você tem algum animal?

A pergunta me tomou desprevenido, então tive que rememorar por alguns segundos antes de respondê-lo.

— Ahn, sim, seu Pôncio, tenho dois gatos, e o senhor? — a maneira inconsciente como eu repliquei me fez querer consertar a pergunta, se fosse possível apagá-la, de modo que não trouxesse nenhuma memória para ele — Quero dizer, quando o senhor, sabe, antes, do senhor, ér…

— Eu tive um.

Ele encarou por alguns segundos o nada, antes de completar.

— Estou há bastante tempo aqui, nessa espelunca abatida, então sei que não está mais vivo. Inclusive fugiu de mim uma vez, pra nunca mais voltar. Era um pássaro.

*****

Acredito que nosso senso de humanidade está intimamente ligado à nossa capacidade de nos reconhecer no outro. Basta imaginar a tormentosa possibilidade de ser o único humano a não poder morrer, em vez da reconfortante ideia de alguém mais o ser junto a você.

Naquela conversa, o senhor Pôncio me explicou em poucas palavras porque ele afastava o machucado pássaro azul para longe. Não queria encontrar intimidade para depois tal animal abandoná-lo como o outro abandonou, ou como sua filha o fez. Mas, afinal, somos seres humanos, e o apego não somos nós que podemos decidir. Seu Pôncio achava que não víamos, mas ele colocava um copo com água e açúcar na janela, encobertado pela cortina, e então esperava pelo pássaro, que vinha todos os dias. Mas não para sempre.

*****

Um dia, entre o horário do almoço e o lanche da tarde, vi o senhor Pôncio andando com seu livro aberto, lendo e reclamando de seu conteúdo, como sempre. Contudo, não acredito que alguém além de mim percebera que eram reclamações diferentes das rotineiras, consideravelmente mais estridentes, e um quê de chamativas. Aquilo se estendeu por toda a tarde, até que meu turno acabou e não acompanhei-o depois disso. Como o dia seguinte era domingo, dia da minha folga, também não compareci.

Só na manhã seguinte fui descobrir o motivo de sua inquietação.

Estava preparando o mingau na cozinha, quando Pablo “Nicarágua” veio entrando aos tropeços e chamando por mim.

— Você tem de ir até o Rabugentinho! Encontramos ele desacordado no chão do pátio!

Pediram então para que eu o acordasse, sabendo de antemão que comigo a reclamação seria menor. Levei-o até seu quarto e o deitei calmamente. Ao lado da cama havia duas refeições intocadas. Pela comida, vi que eram do almoço e a da janta, e me perguntei quem foi o energúmeno que trouxe a janta sem ver (ou pior, sem se importar) que ele não havia comido nada da comida anterior.

Seu Pôncio acordou e pediu para ficar a sós comigo, e então me olhou com uma expressão de alívio.

— Não é que quase enganei a safada?

— A quem enganou, seu Pôncio?

— Aquela maldita, chegada dos mais moribundos e dos senhores como eu. Ninguém sabe quando chega sua hora, mas eu sei. Oh sim, me lembravam disso todo o dia.

Na hora é claro que não entendi uma palavra, mas, mais tarde percebi que se referia à Morte. Ele me pediu que eu o trouxesse um suculento quindim, e quando respondi que isso não era possível, ele se limitou a querer um copo d’água.

— Com açúcar, sim?

Fui até a cozinha sabendo que aquele copo não seria para ele.

O que será que havia dado nele? Será que andou pensando muito no passado? Será que estava querendo chamar atenção? Era provável, afinal, dois dias antes reclamava como nunca, para todos os ouvidos. Enquanto eu pegava a água, tentava refazer os passos de tudo que havia acontecido, o que poderia tê-lo alterado, e me dei conta de que naquele dia o pássaro azul não havia surgido em sua janela. Estranho como no momento aquilo não tinha me tomado atenção. Seria isso então?

Não pude chegar a perguntar para ele. Quando cheguei ao quarto novamente, vi seu Pôncio morto.

Corri até ele deixando o copo espatifar-se no chão. Ele poderia estar dormindo, mas eu sabia que havia se matado. Vi um pote em seu colo com alguns medicamentos caídos, totalmente restritos para ele. Com certeza tinha tentado isso lá no pátio, e agora o fez com uma dose maior.

Xinguei-o por ser um velho burro e inconsequente, mas no fundo me perguntei se eu aguentaria tanto tempo.

*****

Três dias depois, após a confirmação de sua morte, tomei coragem suficiente para ir até seu cômodo esvaziar suas coisas. Novas pessoas chegariam. Entretanto, eu não desejava naquele momento outra pessoa além do senhor que sonhava com quindins. Era contraditório: aquele que atazanava a todos e que a todos repelia, deixou uma calma soturna no lugar. Não se ouvia muito barulho e, principalmente, não se ouvia reclamações.

Seu Pôncio não tinha muito pertences: alguns pouquíssimos pares de roupa, uma escova, um único par de sapatos. Em sua cabeceira vi a dentadura mergulhada no copo, e me recordei das vezes em que, no meio da partida de Damas, ele a colocava.

— Chega de pegar leve contigo, Olhos Pequenos! — por pirraça eu sempre perguntava de que aquilo adiantaria — Ranger dentes ajuda mentes, sim?

Em baixo do copo estava o livro Epicurista. Eu nunca tinha pegado aquele livro, e o velhinho ciumento nem permitiria isso. Então eu o abri e comecei a folhear, e, para minha surpresa, marcando uma das páginas estava uma foto da sua família: sua mulher, sua filha, e ele próprio mais jovem. Em uma das mãos segurava uma gaiola, que continha um pássaro azul. Mesmo na foto, se via a asa esquerda machucada do animal.

No susto deixei o livro cair no chão, mas depois me recompus e coloquei-o de volta. Com a foto em mãos, fui até a janela de seu Pôncio, e olhei para cima.

Engraçado, naquele momento jurei ouvir um pássaro cantar.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve quinzenalmente às segundas.

falta luz

por Nicollas Conti

Finalmente chego em casa, e me parece que meu santuário consegue livrar todo o peso dos meus ombros. Pego a última cerveja da geladeira, e sinto cada gole destravando o que ficou preso à garganta ao longo do dia.

“Que todos se fodam”, penso enquanto mijo de porta aberta. Fico mais aliviado pela porta aberta do que pela bexiga vazia. É uma paz morar sozinho. O inferno são os outros. Li essa frase numa banca. Algo do Caetano, se não me engano.

Em nome da liberdade, não dou descarga. Convenço a mim mesmo que aquele ato seria em prol da sustentabilidade. Pra salvar o mundo não precisa de muito.

De tão cansado, me esqueço de comer. Desabo no sofá e tão logo ligo a TV. Seu barulho me fornece companhia.

Não sei se por conta das risadas vindas do programa ou da penumbra que surge contra a luz, a situação me faz pensar no rumo que minha vida estava seguindo.

Trabalho há dois anos numa distribuidora de bebidas, mas sou formado em direito. O que ainda me motiva é saber que lá pago mais barato pela breja, então vale a pena.

Seguir com direito nunca foi uma opção minha, a faculdade foi um sonho dos meus pais, que se empolgavam toda vez que eu ia engomadinho pra aula.

No meio dos pensamentos, e substancialmente do nada, vem a imagem da minha Clara, que morou comigo até mês passado. Na verdade não é mais minha, saiu daqui para se tornar minha recém “ex que seguiu com a vida”.

“Que eles todos se fodam!”, digo em voz alta para ouvir ecoar as palavras. O programa de comédia tinha acabado e havia começado um filme arrastado com diálogos difíceis. No momento em que levantei para procurar o controle e mudar de canal, a TV fica toda preta e escurece completamente o cômodo.

— Mas que merda… ? — tateando o sofá eu acho o controle, mas ele não liga a TV. Me levanto, bato com a canela na quina da mesa, xingo todo mundo, e clico no interruptor da luz, que também não clareia nada.

“Acabou a luz”.

Precisei de um quarto de minuto para lembrar onde eu deixava as velas, e fui me escorando nas paredes até a cozinha, amaldiçoando a bendita sorte que eu tinha. Não dá para dormir sem o barulho da TV. Era um hábito que Clara desaprovava, mas ela sempre me esperava roncar para então desligá-la.

“Ela suportava minhas manias”, e isso me fez pensar o quanto ela era radiante quando sorria, principalmente se o motivo eram minhas piadas ruins.

Mas, dane-se, vamos às velas. Abri as gavetas do armário e comecei a revirá-las, sem sucesso algum. Houve um momento em que cravei a mão no abridor de lata, e um palavrão instantâneo preencheu a casa. Joguei aquela desgraça pra longe e continuei procurando, até encontrá-las dentro de um copo de vidro. É engraçado como na escuridão aquilo me pareceu esquisito e fora do lugar, nunca havia pensado que Clara poderia estar certa quando me acusava de minhas bagunças e meu jeito desorganizado. “Ela era um saco, agora eu mijo de porta aberta”. Mas naquele momento pareceu uma vantagem extremamente vazia e sem forças.

E, como não podia ser diferente, os fósforos não estavam junto às velas. Mas quanto a isso eu tinha uma ideia mais concreta de onde estariam. Lembrei-me de um dia enquanto cagava em que utilizei os fósforos para me distrair, tentando acendê-los o mais rápido possível contra a caixinha.

Tateei até o banheiro e fui direto ao espelho que possuía um espaço interno para guardar objetos. Senti as escovas, pasta, gilete, sabonete… E lá estava a caixinha com fósforos. Vibrei com minha conquista e logo peguei um palito para acender a vela que eu segurava, e dane-se que a cera cairia na minha mão, eu apenas precisava de uma luz. Risquei contra a caixa, mas nada aconteceu. Joguei esse no chão e peguei outro, que também não funcionou. A cada fósforo que tentava eu me desesperava mais, principalmente por perceber que todos aqueles já tinham sido usados naquela vez da cagada.

— SEU BURRO, BABACA! MERDA! — Taquei a caixinha no chão, chutei o bidê e tentei ignorar a dor, que logo me invadiu. Nesse chute desequilibrado eu caí de mão na privada, que mesmo no escuro lembrei que não havia dado descarga.

Me esgotaram os palavrões, então eu chorei.

Talvez de raiva, mas mais pela situação que me fazia pensar o quão inútil eu era. O quanto Clara estava certa, o quanto meus pais poderiam estar certos, e o quão inútil eu era. Eu queria Clara novamente dizendo que eu era irresponsável e me amando e deixando toda minha vida com sentido. Nossa relação terminou com uma discussão, parecida com todas as anteriores, com ela falando e eu ignorando, meu ouvido preenchido pelo meu orgulho, meus olhos não vendo que ela estava indo irreversivelmente para longe.

Ao me sentar do lado da pia, sinto a gilete caída perto de mim. Seguro-a de maneira leve, pesando o quão indiferente seria minha saída deste mundo. Aponto-a para os pulsos, depois para a garganta. Simultaneamente a pensamentos desconexos (como o que aconteceria se me encontrassem com a cara no mijo), eu penso nela. Se ela entrasse por aquela porta nesse instante, eu a abraçaria e suplicaria todo meu perdão;  como a uma deusa, ou mais do que isso; pediria as contas e trabalharia com o que gosto (foi o que ela sempre me disse pra fazer); sentiria de verdade o que é estar vivo ao seu lado.

Na minha frente estava apenas o corredor escuro, e na minha mão a ferramenta pro meu fim. “Que meu orgulho ao menos não me impeça de fazer isso”. Dou uma última olhada para a porta da casa, esperando que ela viesse e me resgatasse, como sempre. A porta permaneceu inalterada.

Eu separo a lâmina do cabo, fecho os olhos. Encosto no pescoço.

A luz volta.

Ouço o barulho de uma música comovente vindo da televisão, e vejo a luz da sala acesa com o interruptor que mexi. Ligo a luz do corredor após lavar minhas mãos e arrumo a bagunça que estava no chão da casa. Durante toda a limpeza, eu me permito não pensar nas coisas que haviam ocorrido.

Quando chego para limpar a sala, o telefone toca. O síndico Rodriguez me liga falando sobre a queda parcial de energia no condomínio.

— […] E aí metade do seu bloco ficou apagado. E o senhor, como está? A luz voltou completamente?

E sua pergunta traz às claras o que eu deveria fazer nesse momento. Iria pegar minha jaqueta, sair dali naquele instante, e visitar uma pessoa em especial.

— Seu Rodriguez, agradeço a preocupação. Fiquei bastante tempo sem luz, e não pretendo continuar assim nem mais um segundo.

Desliguei o telefone, peguei minhas coisas, abri a porta de casa. Antes de sair de lá, com a mão no interruptor, olho bem para dentro do aposento. Ainda que todo iluminado, eu sabia:

“Falta luz aqui”.