querida nina

por Ana de Oliveira

Acabou que não deu certo. Eu não vou mentir. Não deu certo, e nós sabemos. Mas eu não vim ditar o óbvio para você. Eu vim dizer ‘oi’ com gostinho de despedida. Eu vim ficar indecisa ao sair porta afora. Vim ficar entre o ‘sim’ e o ‘não’. Vim depois de ponderar demais, daquele jeito que você faz, na intenção de ser justa e de não machucar ninguém — aprendi isso com você.

Eu nunca soube me despedir das pessoas. Nunca aceitei partidas que não fossem de acordo com nossas vontades, acho que você sabe disso. Nunca fui de me conformar. E não vai ser agora que irei fazê-lo. É exatamente por isso que esta carta de despedida não pode se parecer como se fosse uma. Precisa se parecer como uma pergunta inocente sobre como você está.

Acima de tudo, quero que você seja feliz, de verdade. Quero que consiga alcançar tudo o que quer e que não alcançou por alguma mudança de planos. Quero que o anel no seu dedo ainda signifique alguma coisa mesmo depois de muito tempo. Mesmo que você acabe perdendo-o, pelo desgaste ou pela distração. Quero ainda ter a chave do seu coração. Só pra ficar guardado mesmo. Só pra ter o título de alguém que é motivo de seus sentimentos. Porque eu sei que não é justo que eu queira mais uma chance depois que o tempo passar. Eu sei que não devo fazer você dar marcha à ré. Vou me contentar, então, em ser aquela que você mais amou.

Eu sei que está parecendo que vou morrer ou que nós nunca vamos nos falar novamente. Mas isso é só um backup, para ter certeza de que você sabe de tudo. Você precisa saber de tudo. Precisa saber que eu irei te carregar comigo da mesma forma que levo seu colar pendurado no meu pescoço. Eu não que nenhum mal-entendido nos separe da verdade e de uma vida que deve ser vivida sem interrogações ou arrependimentos.

E só para constar, eu entendi a mensagem disso tudo. Sei que não somos menos uma história de amor do que outras só por termos um fim. O que acontece é que, talvez, nossa história fosse muito curta para ser vivida numa vida inteira. Talvez, não coubesse. Entendi que livros com menos de cem páginas também possuem coisas relevantes a dizer. Você tinha muitas coisas a me ensinar, não importasse como fossem elas, quanto fossem ou quanto tempo você ficaria.

Ainda tenho medo do futuro, eu confesso. Sei que somos nós que o fazemos. E é justamente por isso que temo. Eu sempre fiz besteiras, você sabe. Sempre atirei antes de mirar. É por isso que essa carta é tão importante, Nina. Essa carta é o botão de emergência. Eu sei que ela pode não valer muita coisa daqui uns anos, por conta de nossas mudanças. Mas eu peço, encarecidamente, que a considere vitalícia. Dificilmente você sairá de mim. [Quase] Impossivelmente me esquecerei de você.

Portanto, tudo aqui escrito serve como resposta e base para você tirar suas conclusões. Não importa o quanto eu mude ou cresça. Não importa o que aconteça, quantos sonhos eu ou você realizemos, quantas vezes ainda vamos cair ou chorar; não importa quantas pessoas ainda vão passar por nossas vidas, quantas de nossas certezas ainda serão mudadas. Não importa e jamais importará. São essas palavras que valem, pois foram escritas no auge da minha razão. O que conta é o que somos agora. Porque se terminamos isso hoje, vou terminar assim, com essas palavras, mais válidas do que qualquer outra coisa que eu tenha dito. Releia sempre que se perguntar se eu ainda a amo. Porque eu ainda te amo.

Só para diminuir seu medo, claro que vamos nos ver. Talvez a gente se esbarre e comece a trocar palavras sobre os anos que nos separaram. Talvez eu te convide para um café e proponha a loucura de embarcar comigo outra vez como foi agora — só que melhor. Talvez eu preserve tudo isso e não queira mexer em nada. Mas não se preocupe, iremos ficar bem no final das contas, seja como for.

Obrigada pela paciência, pela perseverança, por ser minha heroína. Por me salvar incontáveis vezes, por aceitar me amar mesmo de longe. Pela sabedoria que eu jamais alcançaria sem você, pelos sorrisos em meio ao caos. Obrigada por brigar com quem brigou, por chorar quando não aguentou e por ser sincera quando precisou. Finalmente eu sei como é amar. Sei como é a sensação. Está longe de ser o que eu achei que seria, mas é bom ainda assim. Amar é estar com o outro impregnado e tatuado. Amar é se sentir sortudo mesmo de longe; é ser parte de alguém. Obrigada por me deixar ser parte de você. Principalmente por ter sido uma de suas poucas certezas. Nunca conseguirei agradecer o suficiente, mas não me sinto mal com isso. Faz parte do conjunto que recebi quando me dei conta de que amava — e amo — você, o suficiente para aceitar que não me livrarei da nossa história.

Mais experiente e paciente do que antes, eu.

ps. Só pra você saber: ‘Stolen Dance’, do Milky Chance, é a nossa última música.

romantizando dores

por Ana de Oliveira

Você está romantizada em mim. Falando em voz alta, não parece ruim. A sua escolha, sua fuga, bate em mim como consequência da vida. A vida quis assim. O problema é porque a vida sempre parece querer o pior pra mim. E eu nunca entendi isso.

Para mim, você nunca me deu as costas. Não fez isso. Caiu um raio na sua cabeça, e de repente você não podia mais lutar por nós. Só por isso. Não foi porque você desistiu de continuar firme. Foi porque você não aguentou. Foi porque você foi vítima. Não perdeu o que sentia por mim, perdeu um braço.

O problema sempre parece estar em mim, que nunca compreendo bem as pessoas. Que nunca vê o quanto elas sofrem e que não entende que é preciso sofrer — sempre — para ver um resultado bom lá na frente. A culpa é sempre minha, que nunca lhe dá — mais uma — chance pra nada. Que nunca acredita — tolamente — em você. A culpa sempre cai em mim, que, mesmo não conseguindo pensar em mim mesma, consigo ser egoísta.

E é assim que eu volto pra você pedindo desculpas. Como se, mesmo carregando um peso imaginário, tivesse feito tudo de errado. Como se só a minha respiração incomodasse. Eu não devo, de jeito nenhum, discordar da situação que você insiste em nos colocar. Preciso aceitar, porque tenho que compreender você. Preciso ser o exemplo de namorada para você. Só acho coincidência você não precisar ser o mesmo pra mim. É estranho não receber nada de você. Mas, essa parte devo ignorar. Até a dor, tão romântica, me fazer sangrar.

diário

por David Plassa

Hoje tive um dia difícil. Me dei conta do absurdo em que vivo.

Às 8h45 o despertador em meu celular dispara, coloco no “soneca” e acordo desesperado 15 minutos depois. Me desvencilho da roupa de dormir em meu corpo e entro debaixo do chuveiro. Lavo a cabeça, ensaboo o corpo, escovo os dentes, tudo ao mesmo tempo. Penso em minha folga. Folga. Desligo o chuveiro, me enxugo, me visto, ensaco a marmita, tomo meu antidepressivo, me despeço da minha esposa, dos gatos, chamo o elevador. Saio com a sensação de que esqueço de algo. É assim todos os dias. Desço com o elevador até o térreo, saio por uma porta, saio por um portão, corro atrás de um ônibus, ele para, eu entro. Penso que estou sem o bilhete, mas ali está o bilhete. Passo a catraca, sento, dou o sinal. Apenas um ponto até outro ponto para pegar outro ônibus, que parece já estar lá, mas não, é outro da mesma cor. Atravesso com o farol fechado, xingam a minha mãe. Sento, espero. O segundo ônibus chega lotado. Me empurram, me ignoram, me olham feio. Sento, abro o livro, leio, fecho o livro, dou o sinal, desço. Ando dois quarteirões até a livraria. Porta aberta, bom dia, bom dia, subo as escadas que dão na cozinha. Bato o ponto, tomo café, ou vice-versa. Ponho o crachá, vou para a frente da loja, ligo o computador, atendo o telefone, passo cliente no caixa, empilho livros, devolvo alguns para estante, atendo o telefone, procuro títulos no sistema, abro encomendas, volto para a cozinha, tomo café. É assim até às 14h, meu horário de almoço. Bato o ponto, esquento a marmita, coloco no prato, como, lavo a louça, tomo café, sento, abro o livro, leio, fecho o livro, bato o ponto, volto pra loja. O relógio demora a passar. Você quer fumar, mas não pode. Você quer fumar, mas não pode. Não pode porque faz mal, dá peso na consciência, cheiro na roupa, azar nos desejos. Você não pode ficar parado. Tem que vender-vender. A quanto está da meta? Você não pode ficar parado mesmo quando não tem o que fazer. Anda pela loja, dou a volta em mesas, mexo-remexo em produtos, desarrumo e arrumo mostruários. Ainda faltam cinco minutos para ainda. Às 19h bato o ponto pela última vez no dia. Esqueço o pote da marmita, até amanhã, até amanhã, ando até o ponto de ônibus, sinto-me vazio, dou o sinal, sinto-me perdido, passo a catraca, sento, não sei se estou cansado. Desço num ponto, caminho até outro, pego o segundo ônibus. Olho pelas janelas, tudo parece mais escuro. Desço. Abro o portão, abro a porta, abro a porta do elevador, 4º andar. Entro em casa, não vou jantar. Sento no sofá, olho para a parede, os gatos me olham, minha esposa pergunta se está tudo bem. Aguardo tudo se repetir.

do outro lado do oceano

por Marcia Dantas

Meus dedos estavam ansiosos no teclado do celular, como se tivessem pressa. Eu tinha pressa. Precisava deixar todas aquelas palavras ali, na mensagem destinada a você, e que seus olhos pudessem lê-la e entender.

Confiava essa mensagem aos seus olhos e somente aos seus.

Estamos distantes, mas sua presença me ajuda todos os dias. Ler suas mensagens quase diárias são como a voz que preciso ouvir nos momentos certos, fazendo com que eu tenha a coragem de continuar. Às vezes é tão difícil estar aqui sozinha e você consegue diminuir a solidão em todos os momentos.

Hoje foi um daqueles dias que eu só queria fugir para longe, desistir de tudo e voltar para casa. Desejei demais estar perto de você e ganhar seu abraço apertado e ouvir as palavras que sempre fazem com que eu me sinta melhor.

Sei que você diria para eu não desistir e só por isso não joguei tudo para o alto de uma vez.

Meus dedos estavam ansiosos, mas não para contar todos os problemas que me atormentaram, e sim para dizer que estou aqui, do outro lado do oceano, enfrentando tudo, como você sempre me ensinou. Sua força não me abandona e graças a você, mãe, que estou aqui.

Espero que leia logo essa mensagem e entenda o quão importante é para mim.

quando eu quase morri

por Ana de Oliveira

Meu amigo,

Não consigo lembrar de palavras melhores para dizer o que aconteceu. Em algum momento, me senti perdido dentro de mim mesmo, e não pude fazer nada a não ser acenar que sim com a cabeça, confirmando que aquilo estava, de fato, acontecendo. No parapeito da minha janela, meus pés pousavam, enquanto a vertigem chegava de mansinho; tenho medo de altura — e mais ainda de cair.

Por alguma insanidade, pensei um pouco antes de concretizar o que eu julgava ser minha única opção. Larguei o frio da janela e a fechei, na tentativa de me sentir aquecido pelo menos nos meus últimos minutos. O calor do meu quarto fez com que meus pensamentos se concebessem mais rapidamente, e de repente meu falecer já não era tanto. Contatei, através do celular, para minha amiga de longa data, a Madu. Ela mesma, caro amigo.

Depois de um cumprimento morno, comecei de fato a conversa confessando que gostaria de que tivesse um rio à minha frente. Porque eu não pensaria duas vezes antes de pular. E, como você sabe, meu caro, eu não sei nadar. Desejei sentir o sufoco e a frustração em respirar com facilidade, desejei que algo me puxasse rio adentro. Ou melhor, que fosse uma correnteza. Me levasse para onde ela quisesse, eu ao menos iria contestar.

Para a minha surpresa, ela desejou o mesmo. Perguntei-me se por acaso passava por situação parecida, e, se fosse verdade, eu saberia. Ela sempre correu até mim quando sentiu-se ferida, e, por força do hábito, passei a carregar esparadrapos e palavras gentis no meu bolso. Então continuou dizendo que não se sentia tão bem mais, e que não adiantava mais correr, pois todos os lados pareciam cercá-la. Ficamos naquela compreensão mútua, numa situação semelhante a alcoólicos anônimos, compartilhando nossos demônios.

Até que ela percebeu a veemência com que eu pedia aos céus para desaparecer. Era muito real e não poderia ser dito da boca pra fora. Era muito enfático para ser uma medíocre analogia. E me perguntou: você não quer morrer agora, quer? Sinceramente, amigo, disse que sim. Tentei de tudo para seguir meu lema, mas eu havia chegado num ponto em que isso me pareceu inviável. Assim como ela havia confessado, todos os lados pareciam me cercar, e a sensação de sufoco apertava-me a garganta.
“Vamos viver assim até quando?” ela me perguntou, mais uma vez tomada pela ciência, tentadoramente boa, de que não era a única nesse barco.

“Até não viver, Madu.”

E aí, ela soltou todo o seu desespero confesso. Não dava para viver sem mim. Conhecia como era a sensação de não sentir-se a salvo em lugar nenhum, conhecia a dor, e só eu sabia que sim. Do que precisávamos?

Eu precisava de paz, meu amigo. Ainda preciso. Mas antes queria terminar meus projetos começados. Seria ridículo sair correndo para algum lugar muito melhor que a Terra deixando as razões da minha existência para trás. Tudo que eu lutei tanto para conseguir. E de repente consigo, e dane-se? Não, dane-se nada.

Entretanto devo dizer que a tentação era muito grande. Mas tinha a Nina – ainda tem. Pensei em deixar uma carta, como essa que escrevo, me parecia certo. Perguntei se deveria avisar exatamente minha hora de partir à Madu. Ela pareceu incrédula e não queria realizar que eu estava mesmo oferecendo esse tipo de aviso.

“Você me ama?” ela indagou.

Que pergunta idiota. Claro, eu te amo. Diante disso, e da propensão de ela a fazer o mesmo que eu pretendia, pedi para que não o fizesse. “Não se mata, tá” pontuei, antes de dizer que gostaria de pedir desculpas à Nina. Ela certamente não merecia isso. Não merecia que eu entrasse na vida dela do nada para sair dela também do nada. Depois de ter feito uma bagunça e tanto. Meu amigo, eu baguncei a vida daquela garota como jamais pensei que fosse o fazer. Mas ela é incrível, sabe? Não consegui dizer não à tentação de ser o amor dela. Eu quis, eu fiz, eu fui — e ainda sou.

Não faria sentido deixá-la naquele momento. Todavia, pior ainda era achar que eu possuía forças para continuar. O único esforço que ainda havia em mim estava guardado para pular da janela. Apenas. E ainda assim não teria garantia de morte, porque a altura era relativamente baixa. Mas pelo menos me sentiria vivo mais do que poderia sentir sentado naquela cama, falando da minha vida ferrada com a Madu; que por falar nela, disse que não enxergava a vida dela sem mim, seu irmãozinho mais velho. Como poderia viver? Certamente melhor do que eu, Madu.

Passei horas convencendo-a de que eu não pertencia mais a este mundo, e que meu lugar era outro. No desespero, naquela voz quase irreconhecível, ela começou a me implorar, com total ciência do que estava fazendo. Disse que estava de joelhos e me senti mal. Porque eu não queria ninguém implorando minha existência, ninguém sofrendo. Pena que o sofrimento era inevitável.

Em um determinado momento, cheguei a conferir minha janela, para ver se ainda sentia aquela vontade infinita de pular dali. Mas, conforme as palavras de Madu foram chegando aos meus sentidos, algo aconteceu com aquela janela, já não mais tão convidativa. Não sei o quê, mas eu não quis nada além de sentar e me obrigar a ouvir o choro de Madu e pedir que ela parasse. Eu não queria ouvir nenhuma lágrima sua. Porque a partir daquele momento, a desistência temporária havia chegado com uma cara boa. E me convenceu a repousar na minha cama quente.

Não quero imaginar o que você vai dizer, meu amigo. Porque sei que chegaria muito perto de acertar. E, olha só, já estou imaginando. Você me repreenderia. Diria que não tenho culpa nem da metade das mazelas que acontecem na minha e na vida da Nina. Mas é que aquela bomba lá, cogitar o pior, me quebrou todo. Eu não queria ter que me afastar da garota que eu gosto só porque a mãe dela fez um inferno na Terra. Só que, dentre todas as outras opções, naquele meu mais novo momento de loucura, isso parecia certo.

Obrigado por sempre ter as certas palavras na boca, caro amigo. Hoje eu as encho de razão. Não tenho culpa de tudo, e, ainda que o medo tome conta de mim, precisarei viver. Precisarei terminar tudo que comecei, fazer Nina feliz, e ser o amparo de Madu. Se eu quis morrer por falta de vida, preciso começar uma para que isso não mais aconteça. E não há nada que eu deseje mais do que estar aqui, na Terra, cumprindo minhas tarefas. Inclusive, terminando esta carta, e alongando ao máximo nossa correspondência.

Ainda chocado com a gravidade de minha fraqueza, eu.

as autobiográphicas: conto nº 1

por Braz

Houve um tempo em que tive um vizinho muito especial. Ele era um homem à prova de balas. Ainda hoje me lembro do êxtase que sentia diante de suas demonstrações de super humanidade: mãos na cintura e um sorriso, enquanto meu pai descarregava em seu peito cartuchos de 9 mm. Fora isso, e uma farta e bem cuidada barba, nada tinha de especial; era de estatura mediana, com os cabelos já rareando e dono de um físico que não era dos mais heroicos. Mas por Asimov, ele era à prova de balas. Eu o amava como só as crianças pensam ter o direito de amar.

Havia também no bairro um poeta por quem eu guardava profunda admiração, a contragosto de meus pais. Estava sempre na mercearia em frente de casa, bebendo devagarinho os líquidos que o levavam para aquele mundo onde só ele e uns poucos tinham permissão de entrar. Certa vez, pedi ao Invulnerável que me levasse ao sarau que acontecia toda última quinta-feira do mês em nosso bairro. Seria o meu primeiro, já que meus pais jamais me permitiram ir — “Muito esquisita aquela gente de camisa toda aberta”, dizia minha mãe e meu pai, por indiferença ou covardia, era sempre conivente com suas vontades. Mas daquela vez seria diferente. “O homem é à prova de balas, mulher! Não há o que temer”, disse meu pai, fazendo-se herói pela primeira vez.

E lá fomos nós, meu escudo e eu. Lembro que durante todo o caminho eu segurava firme em sua mão, numa esperança de menino, de absorver um pouco daquele dom. Ele pareceu notar pois, de quando em quando fazia caras e bocas, como quem está sentindo um calafrio ou perdendo as forças. Ele era um péssimo ator. Rimos muito disso.

O sarau era realizado em um terreno baldio no qual brincavam as crianças do bairro e eu com meus irmãos (família é tudo, família e nada mais!) após o colégio. Chamávamos o lugar de “o outro lado”. Meu vizinho tornara-se conhecido por todos, por conta dos grandiosos feitos da semana passada. Quando o viam, porém, não se assombravam. Ao contrário, de modo zombeteiro (sobretudo os crentes) persignavam-se e diziam coisas como “rebater bala é fácil, quando se está sob a proteção do Castanho”. Havia boatos de todo tipo, todos maldosos, o que o entristecia.

Começa o sarau. Hoje sei que aqueles que se apresentaram, naquele e em outros dias, não eram poetas. Não, eles eram qualquer coisa entre a tentativa e o erro. Não se pode ser poeta uma vez por mês. Só o Poeta era poeta, e era por ele que todos nós esperávamos. Então ele sobe ao palco — engenharia de bairro, madeira úmida e prego enferrujado — e declama seu mais recente poema, ainda inacabado. Tão logo começa, já termina. E termina com tudo. Termina com a tristeza do meu amigo. Um homem à prova de balas apaixona-se. E é correspondido. Depois daquele dia, nunca mais foram vistos longe um do outro. Formavam um belo casal. A felicidade do meu vizinho era tamanha que chegava a lhe causar pequenas hemorragias.

Os dias foram passando e o amor dos dois só fazia aumentar. Decidiram que iriam se casar, e que seria na última quinta-feira do mês. Pela primeira vez não haveria sarau no bairro. O Poeta nada tinha de valor senão suas palavras. Meu vizinho tinha lá as suas posses, muito embora não trabalhasse. “Talvez ele esteja mesmo em comunhão com o Tinhoso”, cogitei algumas vezes, chegando à conclusão de que melhor é que se ame ao diabo do que a deus, que nada concede e tudo cobra. Os preparativos seguiam a todo vapor: enfeitaram as ruas, pintaram os muros, lavaram as calçadas. As mulheres, os homens e as margaridas dos canteiros prestavam auxílio em tudo quanto fosse preciso. Até mesmo meus pais fizeram questão de conhecer o Poeta, a quem antes tanto temiam, e o fizeram por amor àquele amigo. A felicidade era geral, mas as velhas do bairro, se não me engano eram três, não tiravam boas sortes de suas ouijas com viva-voz embutido. “Malditas Baba Yagas do lado de cá”, dizia eu ao meu vizinho. Ele apenas sorria e dizia “Isso não é nada, Tigelinha”, afastando-me os cabelos dos olhos. Eu tentava sorrir, mas sentia ódio. Assim são as crianças: puro amor, puro ódio.

Enfim chega o casório, por todos tão aguardado, tão cuidado; cerimônia sem religião, a falsidade passava longe dali. O Poeta era só sorrisos, ainda que meio sem graça pelo engomado das vestes. Já o invencível era emoção, plena, pura e infantil. Só os homens amam assim. Selaram sua união sem alianças, pois o Poeta não as quis. Ataram pulseiras naturais, num ritual assim, meio hippie. A festa foi linda, como só mesmo as festas de rua. O bolo, feito por minha cunhada (sempre hei de amá-la em segredo, G.) estava perfeito como manhãs de quintas-feiras, manhãs que guardavam um sarau à noite. Todos comiam, todos bebiam, todos ficavam mais humanos. Menos as velhas. Como abutres, espreitavam o casal do alto de suas echarpes puídas. A mais velha dentre as três chamou meu amigo de canto, ao final da dança dos noivos. Disfarçadamente, me aproximei o máximo que pude a fim de escutar o que ela dizia, mas só o que pude ouvir foi algo como “é exposição demais às letras, Heliodoro”. Até então eu não sabia seu nome. Tentei me afastar mas ele, ao me ver, abraçou-me forte, como nunca antes. Posso jurar que ele tentava me passar o seu dom. Infelizmente, não conseguiu. Descobri isso anos depois, três balas depois.

O Poeta mudou-se para a casa do meu vizinho na mesma noite, e ainda conversamos, eles, meus pais e eu, por algumas horas. Sentia que havia algo de errado com meu amigo, mas me calei. Afinal, ninguém nunca acredita nas crianças. No dia seguinte acordei cedo. Estava ansioso, a fim de saber do meu vizinho como era isso de estar casado, mas minha mãe censurou-me. “Agora ele tem família, já não pode se ocupar tanto de você”, disse. Estávamos prestes a brigar quando, ao longe, ouvimos sirenes que foram ficando cada vez mais altas, até que pudemos ouvi-las bem em frente de nossa casa. “É a polícia, escondam os temperos!”, gritou meu pai. Mas não estavam lá pela especiarias, não daquela vez. Foram chamados pelo Poeta que, arrastado para fora pelos homens que trajavam bege, gritava enlouquecido “Eu nada fiz! Eu nada fiz! Eu declamei-lhe o meu amor!” O impenetrável foi encontrado morto na cama; um corpo nu e intacto, nenhuma marca, somente a morte caindo-lhe como uma luva. O Poeta foi jogado numa cela sem lâmpada, sem pena, sem papel e sem ter quem por ele sentisse pena. Morreu de combustão espontânea causada por profunda tristeza e sobrecarga criativa. Quanto a mim, após tão dolorosos eventos, meu mundo perdeu toda a cor. Nunca mais nada de fantástico aconteceu naquele bairro e eu deixei de acreditar no improvável.

Anos mais tarde, voltei ao local de minha infância, à procura da velha que falara com meu amigo no dia do seu casamento. Eu a encontrei; ela parecia agora mais velha que a mentira. Ainda vivia, graças aos seus unguentos literários. Sentei-me ao seu lado na cama, afaguei sua pele asquerosa e perguntei-lhe, com minhas mãos em seu pescoço, o que de fato ocorrera naquele dia durante a festa, o que teria ela feito contra meu o meu amigo. Ela então me olhou fundo nos olhos, afrouxando meus dedos e respondeu-me rindo, como quem ri de uma piada contada pelo patrão: “Eu nada fiz, minha criança. Você é tão novo, ainda não entende. Quem fez foi a Existência, que sempre teatraliza, com tudo e com todos. O Homem à prova de balas não era à prova de palavras.”

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Braz é artista, fumante e anacrônico. Escreve semanalmente às quintas.

não é bem assim, meu bem

por Ana de Oliveira

Eu costumava ser entusiasta. Você colava a bunda na cadeira e eu não via problema algum. Que mal tinha segurar todas as pontas da corda? Eu fazia pouco caso do seu pouco caso. Achava até lindo. Um dia você me agradeceria e faria um discurso sobre como isso salvara nossa relação. Eu havia lido muito sobre isso, como um lado apenas poderia agir pelos dois. Li que algumas pessoas esqueceram o amor próprio no bolso, fingindo que o relacionamento não é uma troca e que poderiam se contentarem com apenas a simulação de uma retribuição.

Confesso que de começo isso seria até heroico. Não é muito bravo salvar uma relação com apenas a boa vontade? Não é digno de aplausos? Eu aplaudiria. Mas só se não fosse eu ali, sendo iludida mais uma vez, admirando sua figura inerte grudada no computador. Não me entenda mal. Eu ainda lutaria por nós dois; ainda sustentaria todas as minhas promessas. Mas é que você nem demonstra sinal de vida diante disso. E ficou bem claro para nós de que deveríamos fazer tudo aquilo que precisássemos. Só que não sei onde estava escrito que eu precisava fazer milagres. Me mostre onde combinamos isso, porque não consigo entender. Se tudo que precisamos é de algo beirando ao impossível, então…

Você me olha com aquela cara de tanto faz e me dá um beijo, esperando que eu me iluda com o pequeno carinho. Já os seus olhos… eles pedem para que eu não acredite em sua boca, porque ela não sabe mesmo o que diz. Realmente, não sabe.

Tente me entender. É que não é bem assim, meu bem.

Eu não sou nenhuma mulher maravilha, não tenho essa força quase subumana que você pensa que tenho. Não sou corajosa tal qual as amazonas que você vê na televisão nos finais de semana. Muito menos uma supergirl que vai fazer de tudo para salvar o mundo. E, por último, não sou suicida emocional. Eu sou fraca, meu amor. Fraca, mesmo. Que fique claro. Fique claro, para que você não me pergunte porque eu não atendo suas ligações logo no primeiro toque. Que as pequenas esperas, que lhe têm obrigado a exercitar sua paciência, são fruto da minha hesitação.

E não, isso não é coisa de mulher. Isso é coisa de alguém que ao mesmo tempo que te ama, se ama também. E que não está sabendo conciliar esses dois sentimentos tão fortes. Eu ainda não sei onde termina meu amor por você e onde começa o meu próprio. Para mim, esse limite tá borrado. O certo e o errado me parecem tão um só. Tão juntos e únicos.

Entretanto, decidi que não vou esperar para sempre. Porque eu não sou aquelas personagens de cinema de comédia romântica que veem solução em tudo. Não posso me permitir ser tão pouco de mim só porque isso não te é favorável. Acho que isso é um problema seu. Ver que eu também tenho capacidade de decidir o que quero para mim, mesmo depois de me embriagar de hesitação. Embora eu tome muitos cuidados antes de me pôr decidida para algo, ainda tenho aquela pequena vontade de ser livre. E não falo de solteirice não, meu amigo. Eu falo de poder ser livre sabendo que não preciso ser nada além do que eu. Sabendo que eu não preciso ser você ao mesmo tempo que sou eu mesma. Sabendo que não tenho que sustentar o lado que você insiste em afundar. E sabendo que tudo o que eu estava fazendo não passava de um plano para não me afogar, o que seria inevitável. Eu estava errando feio com nós dois. Estava sendo duas por nós. Duas em uma por nós.

E não é bem assim, meu bem. Não é assim que funciona.