esta é a sua vida

por Ana de Oliveira

Esta é uma viagem sem volta.
Justamente aquela que você não pediu pra embarcar.
Aquela que você teve medo assim que abriu os olhos.
Sendo assim, você vai se perguntar o que deve fazer.
Sem orientação, vai tropeçar nas primeiras estações;
Vai achar que pode andar nos corredores do trem sem cair,
Não vai entender por que precisa fazer algumas paradas.
Vai chorar quando o trem frear bruscamente
E mesmo novo no embarque, achará que sabe de muita coisa
Achará que sabe onde está e, exatamente, para onde vai.
Pobre você, que mal embarcou e já acha que tem o manual pra tudo,
Como se fosse um guia turístico, só porque se acostumou com a paisagem;
Vai ficar confuso porque o trem pode não seguir o caminho que mentalizou.
Achará estranho e nada poderá fazer; porque, adivinha só, você não está no controle.
Você não é o maquinista.
Um dia, estará arrependido de ter embarcado num trem que não desembocou onde você queria.
A raiva irá tomar-lhe conta, aparentemente com razão,
Mas o que você não sabe é que isso não é licença pra errar,
Jamais será.
Perguntará por que mesmo ainda não pulou do trem, ainda que isso lhe custe feridas.
Os dias se arrastarão na sua frente, e você talvez se convença de que está fazendo tudo certo, ao continuar viajando.
Feliz, entenderá que tudo precisou mesmo acontecer,
Que as paradas sem planejamento fazem parte do show.
Entretanto, não é uma certeza. Você não vai compreender tudo. Vai cair quando achar que finalmente poderá levantar.
Só tome cuidado: nem todas as quedas são inevitáveis.
Às vezes tem como você se segurar nas curvas e aprender a viajar em pé, se preciso;
Aproveite e tome o controle quando puder.
E, novamente, outra freada. Você, que tudo parece saber, cairá.
Logo quando achou que tudo estava certo e que finalmente havia criado força.
Só tenta se lembrar: você não precisa desistir de levantar,
Não precisa viajar no chão,
Olhe ao redor e perceba:
Há pessoas que também estão nessa, assim como você.
Encontrará amigos, romances;
Perderá alguns porque descobrirá que não desembarcarão no mesmo lugar que você,
Ainda terá outros porque estes lhe visitarão quando você chegar ao seu destino.
Aí então, de novo, tudo fica difícil. E parece fazer as coisas de forma errada.
Você vai querer desistir,
Chorar,
Gritar,
Espernear
E pular do trem.
Vai se perguntar tudo o que já se perguntou:
Por que não desistiu, se nada acertou?
Vai se arrepender das expectativas,
Das palavras vividas,
Dos dias corridos e bons,
Dos ruins, também.
Vai, simplesmente, achar tudo isso uma merda e perda de tempo.
Mas não se confunda, não se esqueça e mentalize:
Você fez tudo certo.
Talvez esta não seja de fato uma viagem.
Você continua não sendo o maquinista,
Continua sem entender.
Chore e reclame
Mas esta…
Esta é a sua vida.

ps. Continue fazendo tudo certo.

[…]

por Izabela Souza

Andando por Recife, observo. O prédio empresarial chama Casa Grande. O motel? Senzala. E assim, diariamente, reforçam a ideia de que brancos ficam com o glamour dos empreendimentos e a vida digna e sofisticada. O negro e a negra? Objetos sexuais. Trabalhadores da massa.

Vocês podem achar que, designando esses locais, lá permaneceremos. Mas não. A senzala não será o motel. Será a universidade, o tribunal, o seu prédio empresarial. Se a senzala é o lugar do negro, então que cada lugar do mundo seja uma. Se lá tiverem mordaças, que elas não estejam sendo usadas. Que tudo o que de ruim que nos fizeram seja um lembrete para que, cada vez mais, venhamos com força.

A senzala vive nestas palavras, não no gozo do sinhôzinho.

somos torcedores

por Caê Jansen

Enquanto aqueles 90 minutos são percorridos e corridos, o mundo se torna um lugar melhor. Pelo menos para nós pouco importa como será o fim, do fundo da garganta nossa alma se liberta em uníssono e toca os céus, magnífica junção de forças terrestres e leis universais.

Sabemos como poucos transformar o tempo e torná-lo eterno. Temos o poder de fazer meros humanos se tornarem deuses, mas que não se esqueçam os deuses, sua divindade é dada e tirada por nós e somente nossas vozes em conjunção com o seu sacrifício e lealdade e outras forças ainda inexplicáveis têm esse poder.

A alegria e a tristeza correm juntas na tênue linha de fundo que é viver de amar, e em matéria de amor eu garanto, somos os especialistas desse mundo. Amamos gratuitamente, incondicionalmente, e assim como amor de mãe nunca acaba, é eterno.

Não se esqueçam, nós que amamos somos mais importantes do que os por nós amados, somos nós amantes da bola a razão disso tudo, e somos nós que devemos ser reverenciados por nossos deuses. Somos torcedores.

pedaços de minha alma

por Marcia Dantas

As palavras escorregam pelos meus dedos de forma que, por vezes, sequer consigo perceber qualquer controle sobre elas. Como se elas tivessem vida própria e de mim tomassem conta. Talvez seja mesmo assim, cada vez que me sento para escrever e colocar meu coração nessas histórias que povoam minha mente do amanhecer até a hora que vou dormir. Seria eu apenas um instrumento dessas ideias?

Não importa, só sei que gosto da sensação de tê-las fluindo com tanta facilidade.

Houve um tempo que eu não sabia quem era, apenas que estava aqui nesse mundo por algum motivo que um dia se revelaria a mim com o passar do tempo. A única certeza que havia em mim era que minha vida era completa quando eu tinha a oportunidade de escrever e expressar em linhas espessas o que estava em meu coração.

Também teve uma vez em que esqueci o que isso significava.

Acontece que, em determinada época de minha vida, acabei por me esvaziar de mim mesma, até aquelas certezas que eram praticamente imutáveis. Tudo era tão assustador ao redor de mim e tinham tantas coisas que escureciam o meu ser e me enchiam de medo, que quase tudo se perdeu. O mundo pode ser assustador, mas nós também podemos nos tornar nosso próprio inimigo.

Essa talvez seja a pior ameaça de todas e a que mais nos destrói do pior modo: através do esquecimento e do apagamento de nós mesmos.

Tive então de me descobrir uma vez mais e de reinventar quem eu era. Foi nesse momento que achei o que me completava. Encontrei as palavras e elas me resgataram.
Hoje elas fazem parte de mim e fazem parte de minha identidade. As pessoas olham para mim e sabem que elas são parceiras constantes. E me alegro demais quando percebo que essa verdade é tão visível que pode ser notada pelos outros que sequer conhecem o momento em que elas desapareceram e que não estavam aqui no momento em que retornaram.

Não precisei de mais nada para ser quem sou hoje, apenas achar minha essência. Não dependi de ninguém: somente eu e minhas paixões fomos suficientes num processo que precisei viver.

O que você lê agora são pequenos pedaços de minha alma, reconstruída e renovada. Represento esses fragmentos em palavras, que fluem pelos meus dedos. Muitas vezes não consigo controlá-las e, para ser honesta, nem quero. A única coisa que preciso é mostrar ao mundo que elas fazem parte de quem sou.

precisa-se

por David Plassa


A quem interessar possa:

Você me levaria duas refeições diárias até aquela cabana, por favor? Aquela cabana longe de qualquer manifestação humana, próxima à loucura e aos meus demônios, que cuidam com tanto fervor dos meus piores segredos.

Você iria até o banco para mim e pagaria os impostos locais para que me deixassem em paz? O preço pela dádiva da exclusão de toda essa sujeira sem norte. O preço pela covardia em quebrar uma garrafa ao meio e enfiá-la num repente garganta a dentro.

Uma vez ao ano, você cuidaria da pintura externa, por favor? Dê preferência às cores frias e neutras, pois temo torrar ali dentro por conta da falta de invernos e meia-estações. Não existe nada mais irritante para mim do que suar o aquecimento global.

Você faria guarda à porta para que eu me masturbe tranquilamente, sem que as turbas me incomodem quando descobrirem que nasceram em meio a uma armadilha financiada para o benefício de poucos? Posso colocar Chopin para que você não se decepcione com os tempos, mas também não se entusiasme.

Você me alimentaria de tempos em tempos — grandes intervalos até — com livros que jamais figurariam entre os 10 mais vendidos de uma livraria, escrito por desconhecidos amargurados e sarcásticos? Não me importa a edição, o projeto gráfico ou as recomendações adjetivadas. De preferência, os jamais recomendados.

E peço encarecidamente que você coloque uma placa, plantas com espinhos ou até mesmo a carcaça de um animal morto em frente à cabana, tudo para que nenhum desavisado pouse ali e comece aplaudir a porta trancada atrás de um “você poderia… ?”, “teria como você… ?”, “eu precisava que você…”. Não! Chega! Não quero ajudar o próximo em coisas que ele não faz porque sempre lhe foi servido em sua posição privilegiada. Não tem açúcar? Vá até a mercearia.

E quando tudo o que lhe pedi estiver rodando, ainda que sob o peso de “mas o mundo é mesmo assim”, esqueça-me ali para que eu seja pego de surpresa e apodreça de vez em meu próprio veneno, tão humano quanto os seus pesadelos.

[…]

por Izabela Souza

Um dia eu a notifiquei que estava partindo. “Pois é, mãe, quero empreender, quero estudar lá.”. Eu não pedi. Como já não fazia há tempos, mesmo sem perceber. Ela percebeu antes de mim que o laço era agora de um outro material. Mas qual?

É difícil sair dos braços e cuidados da mãe. Principalmente nos dias em que lembramos do abraço, do cheiro das comidas favoritas, das conversas enquanto assistíamos filmes de artes marciais. Mais difícil ainda é se ver responsável por cuidar de toda a sua vida e ainda achar tempo para manter aqueles que amamos e estão distantes nela. Neste imediatismo cotidiano, esquecemos que aquele “bom dia” não é carência, mas um lembrete: “eu te amo”, “você é importante para mim”.

Mesmo assim, como ela diria, mãe é besta. Mãe é quem manda esse bom dia aí — e quem se preocupa com as vitaminas da sua dieta. Mãe é quem pergunta se você vai embarcar sem agasalho e quem apoia o embarque porque sabe que é o que você quer, a sua felicidade. Mãe é sinônimo de amor incondicional, e não romantizando, de renúncia, de recusas, de abrir mão. Mãe pode ser quem te gerou ou quem te cuidou. Mãe é aquela que a gente ouve um rap do Criolo e canta junto agradecendo por ela existir.

Minha mãe é a pessoa mais importante da minha vida. Eu sei que somos diferentes, eu sei que eu não sigo o caminho que ela queria que eu seguisse, de acordo com o viés dela de cuidado. Mas ela nunca me impediu de ser quem eu sou e também nunca me negou seguir o que acredito ser o certo. E é por esse amor e todos os exemplos diários que ela me dá que eu tenho orgulho em dizer que ela é a minha mãe. A ela, um amor além do infinito.

 

aparências

por Caê Jansen

O cansaço de fingir ser outra pessoa estava maior ultimamente, aparentar ser feliz era uma das maiores crueldades que fazia consigo. Entre fotos sorridentes em redes sociais escondia-se o desespero de alguém que se entrega a uma vida de aparências a fim de tentar enganar a todos, mas principalmente a si. E o pior, sabia muito bem disso.

Muito ajudava para sua infelicidade patológica o fato de sempre idealizar a vida de “pessoas bem sucedidas”, sucessivas vezes se via imaginando ser uma grande personalidade do mundo, mas no fundo acreditava que uma vida ordinária, daquelas tipicas de pessoas comuns, era seu destino, nunca fez nada para mudá-lo.

Ver o sucesso, principalmente de emergentes oriundos de camadas mais baixas da sociedade, lhe dava uma pequena esperança, quem sabe uma filha ou um filho prodígio não conseguisse realizar seus sonhos? Porém quando alguma celebridade encontrava-se em desgraça gozava de felicidade, pois esse era um dos poucos momentos em que se sentia um ser humano igual aqueles e aquelas que admirava, e isso fazia com a maior naturalidade possível.

Sorria para mais fotos e cagava regras para distrair-se de sua vida medíocre, julgava as pessoas por suas vestimentas, trejeitos, opiniões, mas o que realmente incomodava eram as pessoas que pareciam livres dessas amarras impostas pela sociedade, corpos e mentes livres eram como punições para sua covardia. Há quem diga que o pássaro engaiolado prefere ver outro pássaro engaiolado ao invés de ser igualmente livre e poder voar por ai, mas isso não é verdade não são os pássaros assim, sim os humanos.