desistência

por Ana de Oliveira

Durante um bom tempo, eu sempre me perguntei o que as pessoas pensavam quando queriam desistir. Basicamente, eu, assim como muita gente, considerava isso uma derrota. Simplesmente não fazia sentido lutar tanto por algo e, do nada, não querer mais. Fui criada na base dos apesares, de que a vida tem dessas coisas, de fazer você querer jogar tudo para o alto. Me disseram que eu nunca deveria desistir daquilo que eu quero, e que a insistência é tudo — ou pelo menos era.

Uma coisa que eu hoje tenho na mente é: essas pessoas ainda não haviam passado pelo que acabei passando. Por algo que todos nós, algum dia, vamos passar.

Para começo de conversa, somos humanamente iludidos. Talvez porque automaticamente buscamos o caminho mais prático, ou aquele que mais combina com o nosso modo de ver e lidar com o mundo. E isso não é culpa de ninguém. Pelo contrário, é natural. Sendo assim, apanhamos todas as nossas experiências e as transformamos em lições. Basicamente, isso tudo se resulta numa espécie de enciclopédia, que sempre consultamos quando uma pedra cai no nosso caminho.

Então, a minha primeira lição foi essa: nunca desistir. Foi dada uma dica de jogo, na esperança de que eu não precisasse passar pelas mesmas provações que muita gente passou. Só que com o tempo, você vê que não é possível evitar. Talvez chega a ser frustrante ter uma dica de vida e ela nada valer. Com isso, percebi que às vezes os apertos se fazem necessários, mesmo com nossas tentativas frágeis para evitá-los, porque trazem o entender de que precisamos lutar pelo que queremos. E isso eu entendi perfeitamente. Uma prova? É exatamente este texto, neste blog. É a prova de que eu nunca deveria desistir da escrita.

Tudo bem, eu entendi sobre insistências. E humanamente iludida, tomei essa lição como verdade absoluta, ou receita de vida. Só que, mais uma vez, eu levei na cara. É incrível como a gente sempre acha que sabe de tudo, que já vimos esse filme antes.

Fiz exatamente o que disseram pra fazer e o que eu já tinha feito antes. Por experiência, disse a mim mesma: vai dar certo, porque você está fazendo tudo certo. Eu sei que o conceito de certo e errado muitas vezes é relativo. E naquele momento, meu conceito de certo era saber que eu fiz de tudo para as coisas ficarem bem. Por alguns meses, aquilo foi o bastante. Eu tinha um mantra baseado em “aguente firme”.

Entretanto, nem tudo precisa ser suportado firmemente. Nem tudo, ou todos, precisam ser parte de você e da sua vida. E a gente só começa a aprender isso quando passamos mal. Precisei perder a vontade de continuar firme para entender que eu podia não precisar daquilo. Seguir outro caminho poderia, sim, ser uma opção válida – e não tinha nada de errado nisso.

É óbvio que essa outra opção não é bem aceita logo de cara, e que ela é sempre posta em segundo plano. Até porque, se você desistir, tudo vai começar a dar errado, e você nunca vai conseguir o que quer. Talvez foi nesse momento que me perguntei o que eu queria exatamente.

Eu não queria dor, eu não queria uma vida dura demais, eu não queria sacrificar minha felicidade por um bom tempo para esperar o resultado desejado. Aliás, eu nem sabia mais se aquele resultado era o que eu queria. De repente, meu mundo foi chocalhado e minhas verdades questionadas. Foi a partir dessa falta de querer, dessa mudança de percepção, que eu quis jogar a toalha. Desistir mesmo.

Não teve a ver com egoísmo ou falta de generosidade. Não foi falta de paciência, tampouco ausência de compaixão pela situação. Eu sei que envolvia outra pessoa, talvez outras pessoas, e que a priori isso parecia covardia ou qualquer outra coisa negativa. Só que, diferente do que parecia, teve a ver comigo primeiro. Eu convivia comigo o tempo todo, via tudo pelo qual eu passava, via minhas mudanças bruscas e desnecessárias. Vi outra pessoa assumir o meu lugar. Eu me vi passar mal. Então, não tem a ver com falta de generosidade. Não é generosidade mais quando você se machuca, se quebra, para que as coisas funcionem. Se é preciso as feridas e a dor, a persistência não tem que existir.

A visão da dor é romantizada demais. Nós não somos mártires nem heróis. Somos um sistema que falha, que é fraco. Todo cuidado parece extremamente pouco. Muitas vezes, insistir no que só parece machucar não melhora as coisas. Não ameniza a dor. É quando você coloca o celular para carregar numa tomada com defeito. A esperança está lá, mas o resultado esperado, não. Nunca vai estar.

Portanto, se eu tivesse que dizer alguma coisa, como dica de vida, eu diria que desistir também faz parte; que isso não te faz pior que ninguém, que você não passa a carregar mais culpa. Você não tem que ficar aguentando tudo e todos só porque precisa mostrar o quão bom deve ser. Às vezes a situação não merece o melhor de você. É, é isso. Não é que estou mudando meus conceitos sobre persistir. Eu só estou acrescentando os de desistir. Uma dicotomia saudável e necessária.

Ah, eu diria outra coisa: nada disso vai impedir que você viva o que eu vivi. Não vai evitar que tudo que você acredita seja posto à prova. Tudo isso vai acontecer com você; de outra forma, mas vai. Mas a minha esperança é que você não precise se flagelar tanto quanto eu fiz para entender que é possível, e saudável, desistir.