o privilégio humano de ensinar

por Marcia Dantas

O giz, a lousa, as palavras: o universo que se abre diante dos olhos daqueles que tem os olhos que pedem pelo conhecimento.

Eu já estive na posição de aprendizado por muitas vezes e sei o que é encontrar um horizonte pelas palavras de sabedoria de alguém cujos passos estavam mais avançados que os meus. Estava perdida em meio a tantas bifurcações e possibilidades, e acabei por receber a orientação de tantas mentes que me indicaram aquelas que talvez fossem as mais indicadas. Até que aprendi a trilhar minhas próprias jornadas.

Meus caminhos foram pavimentados por giz e sabedoria e fui guiada para estar atrás de uma mesa e ao lado de outros que estavam apenas começando suas histórias. E aprecio ter chegado até aqui, para estar ao lado desses jovens que me ensinam e inspiram.

Não quero criar mentes à minha imagem e semelhança, afinal não fui isso que aprendi quando era apenas alguém sem consciência de tudo que viria à minha frente. Quero apenas ver as próximas gerações indo ao encontro do conhecimento e da formação da própria opinião, assim como meus mestres fizeram comigo. Não há nada como aprender a pensar por si só.

O ensino não é uma ciência exata, com erros e acertos muito bem delimitados e precisos. É um ato humano, algo que nos diferencia das demais espécies, pois envolve transmitir não só nosso conhecimento, como um pedaço de nós. Cada vez que abro minha boca, deixo que meus alunos fiquem com um pedaço de mim, o qual eles carregarão e passarão para outras gerações.

Não quero abandonar o privilégio de ensinar ou mostrar aos outros como pensar e trilhar os próprios passos. É um dom que recebi e que me guia todos os dias.

aqueles muitos nadas

por Gabriel Fogal

O dia sempre começa mal. Acordar cedo. Ir para a porra da escola. Sento em qualquer lugar da sala. Converso com uns três à minha volta. Escuto algo sobre eles, alguma coisa sobre o fim de semana. Tomaram vodca com refrigerante. As mães não souberam.

Não presto atenção na aula. Pensamentos: queria uma cerveja; um pássaro seria um bom piloto de avião; ela podia fazer sexo comigo. Umas seis ou sete aulas e estou liberado. Para casa. Almoço em três minutos. Minha mãe:

– Come mais devagar, filho.

Olho como quem não quer nada. Levanto da mesa. Ela insiste:

– Acho que só vai ouvir alguém quando Deus descer na terra.

Continuo quieto. Não resisto:

– Ou se eu morrer, for para o inferno e conversar com o demônio.

Me adianto nas desculpas.

Vou para o quarto. Deito. Ontem fiquei acordado até tarde. Quero dormir um pouco. Mas dormir à tarde é coisa de vagabundo. Segundo meu pai. Se durmo este horário, não durmo à noite. Daí vou mal na escola. Mal nas provas. Repito de ano. E o dinheiro foi pelo ralo. Concordo em certas coisas. Certas.

A tarde é oca. Lição, violão, computador. A noite, talvez o consolo. Algum livro, conversa com amigo. Dormir é bom. Deleite para depois da meia-noite.
*****
Novamente a carteira do desconforto. Muitos novamente. Ninguém como sempre. A gota de chuva. Afasto-me mais da sala. As olheiras. Tudo que não durmo. A vontade de levantar. Sair onde nada somado a qualquer coisa leva a tudo. Atravessar a porta. Do tempo em que não tinham desilusões. Finalmente repousar. Flutuar sobre o mundo que não vivi. O professor:

– O que acabei de dizer? – mantém o olhar fixo em meu rosto. Vejo o rosto gordo.

– O que acabei de dizer? – aqueles sentados em volta riem. Antecipo as desculpas:

– Desculpe, professor. Não prestei atenção. Não dormi bem.

É sexta, último dia de aula. Última aula. Minhas mão pesadas. Escrevendo com o tédio as ultimas palavras do ano escolar. Aqueles que permanecem sentados em sua carteiras deixam o tempo passar diante deles.

Não há como impedir. Tudo aquilo, essa coisa toda. Já não sei diferenciar desejo de medo. Recíproca é a relação com todos da escola. Finjo gostar deles. Eles fingem gostar de mim. Somos diferentes. Somos iguais. Finjo estar bem, amar estar com eles. Vivo mentiras para eles, não sabem. Acham que sou.

Desde de pequeno quando brincava queria ser o personagem heroico, ninguém nunca quer ser o mal da historia.

Mas agora, sou o que em minha historia?

Sempre dividido no que é certo e no que é errado. O bom, o ruim. A eternidade não vai separá-los. Às vezes queria ter os olhos de criança como antes. Perdidos em perguntas novamente. O desespero por uma saída.

Saída de que?

Gostaria de ter certeza de algo. Finalmente o sinal. Agora o descanso de dois meses.
Olhando pela janela vejo tudo o que vejo. Mas não vejo o medo, não vejo a felicidade, não vejo muitas coisas.

O que estou vendo então?

São desejos?

Tantas as dúvidas, tão poucas as respostas. O pensamento de estar sozinho, se realmente for tudo isso, se tudo for o que penso de mentira sobre mentiras, agonizante.

O professor:

– É férias, não vai embora não?

– Só estou pensando sobre como é.

– Como é o que?

– Também não sei – ele fica me olhando com pontos de interrogação . Me levanto e caminho até a porta. Todos já se foram. Um último olhar para traz.

– Boas férias, professor.

Andando pelas ruas percebo como as pessoas se tornaram brinquedos controladas por crianças já crescidas. Vão ao trabalho com roupa social, quase todos. Mas como todos bem enganados reclamam do “sistema”. Finalmente chego ao ponto de ônibus.

O engraçado é como a vida de todos sempre parece mais simples. Todos querem ser alguém mas esquecem quem são, já foram. Querendo ser um alguém que já não lembram quem é.