no que você deveria estar pensando

por David Plassa

Você pode ter tudo no Império das Conveniências
Menos os seus primeiros sonhos
Que eram, você deveria lembrar
Doces leituras de um mundo desconhecido

Você pode estar cercado de janelas antirruído
Mas o silêncio jamais habitará o seu interior
Há sempre uma playlist para cada momento
Que só evidencia sua incapacidade de dançar

E talvez suas fotos te entreguem sorrisos involuntários
Sem que você jamais entenda o motivo
Pois sua memória só criou arestas
E sua capacidade de construir com elas é apenas virtual

Você é a verdade no Império das Conveniências
Porque coexistir é impureza para seu filtro social personalizável
Responsável pela integridade da sua pequena bolha azul de vaidade

transtorno

por David Plassa

sonhou alto deitado no asfalto
lamentou baixo
aos carros que passavam sem ternura
aos transeuntes
que reparavam apenas no buraco ao seu lado

agarrou-se ainda a um desejo maior
não ser tragado
o que parecia impossível
tamanha a força da manhã
a desmoronar sobre todo e qualquer movimento

não tinha planos
apenas sonhos espalhados ao redor
fugidios vez ou outra
sob solas indiferentes de sapatos
ou a escorrerem pelo buraco

assim, sentiu-se fraco
o corpo pesado e arrastado
escuridão adentro
fechando os olhos atrás de luz
pequenas chamas bruxuleantes
da mais pura melancolia

deitado sobre o asfalto
como uma oferenda às circunstâncias