não seremos calados dessa vez

por Marcia Dantas

Estou farta!

Da hipocrisia, de dois pesos e duas medidas,
Das palavras vazias, que refletem a ignorância.

Cansada dos retrocessos,
Dos passos vãos,
Dos esforços desperdiçados.

Esperei,
Perseverei,
Tive esperança.
Mesmo quando ela parecia vã.

Mas então veio o golpe,
O recuo,
E, mesmo diante da óbvia verdade,
Vi que tudo vinha na direção oposta.

Tudo era claro,
Mas os olhos se fecharam.

Tudo era simples,
Mas os ouvidos pareciam ignorar os sons
Que estavam lá
E se faziam presentes.
Sussurrando o que estava acontecendo.

Tudo foi ignorado,
E, desesperada, chorei
Quando vi que o mal estava feito.

Eu não era a única
Pois outros sentiam o mesmo
Ao ver sufocada a sua voz,
Ao ver os direitos retirados.

Então me uni a eles,
Nossas vozes juntas,
Gritando,
Berrando,
Mostrando que bastava,
Não iríamos nos calar.

Não dessa vez.

Agora bem sabemos
O silêncio foi rompido
E nossas vozes
Ecoam poderosas
Por todos os cantos.

Então não nos calaremos.

Romperemos o silêncio
E diremos o que não foi falado.
O que foi escondido
Será revelado.

aquele velho tronco

por Gabriel Fogal

No caminho de volta para casa
na esquina cotidiana
uma árvore sorridente
fantasia partir
para contar mentiras
pelo mundo
com todos que
passam por ali
ela é doce e
gentil como a música
que faz em conjunto do vento
o sol de novembro
vem para agradar
sua solidão
aquece e esquece
que um dia ela foi
importante para todos
que voltam para casa
por ali

anarcojazz

por Caê Jansen

Olá, meu amor,
estou ouvindo Louis
em uma antiga vitrola
que me transporta a ti.
Sinto minha alma flutuar
enquanto danço pela sala
sozinho e cheio de amor.

Ó meu amor
como é bom poder
lançar meu olhar
sob seu inconfundível
sorriso,
e saber que
mesmo a distância
meu amor se mantém
ao ritmo do standard jazz.

Meu mundo ficou mais belo
depois que nas nuvens
dançamos embriagados
e nossas energias fundiram-se,
todas as cores se confundiram
e a melodia que produzimos
era um fusion jazz chique
tão marcante como o do Chick.
A alegria sai pela janela
voando em todas as direções
como um bebop martelando
atingindo a todos na cidade
que finalmente desperta.

E de repente,
que barbaridade,
o mundo se põe a dançar
as fábricas param
para que os operários
comecem a produzir apenas
lindos passos de dança folclórica.
As escolas ensinam apenas
a alegria de viver,
lojas, padarias e mercados
só vendem em troca
de gentilezas
e risadas sinceras.
Bancos só acumulam amor
e assim caem os muros,
fronteiras já não existem mais
e Dizzy sorri feliz e satisfeito.

Frases livres ao vento
são tudo o que ouvimos
e assim bagunçam cabeças
e aceleram os corações
que se recordam:
somos todos, irmãos e irmãs
e devemos ser livres
como um free jazz estupendo.

Pode parecer tudo uma brisa
mas quem sabe não é a brisa
a realidade que nos condicionaram
a renegar por medo
de que todos possamos voar juntos
embalados pelo acid jazz.

[…]

por Caê Jansen

Eu revivo o que há de belo
com sorriso amarelo
me enxergo em ondas sonoras

Fugido da alva assepsia,
tormenta mecânica coordenada
perdido em mais um trago
de um doce aroma renomado

Do café só o odor,
dos encontros as lições,
celestiais presentes racionais
moldam o que somos
mudam nosso ser
apenas a racionalidade muda

Mudo eu grito a plenos pulmões
e nenhum som se propaga,
apenas de propagandas
que vendem lixo processado
e espalham a depressão

Eu crio o criador
logo o criador me cria
e nenhuma criatura além.
Fantasia vestida de realidade
para esquecermos que somos nós
os deuses e demônios de nosso mundo

sobre olhos e sorrisos

por Marcia Dantas

Gosto do que posso ver em seus olhos
Quando eles estão em mim.
É como se você pudesse me enxergar
Melhor que eu mesma.

Quando você me vê meu sorriso se abre,
O coração dispara
E coro,
Sem conseguir disfarçar o que causa em mim.

Então você sorri
E de repente
O mundo começa a girar.

Não sei o que fazer ou dizer,
Apenas olhar no fundo dos seus olhos
E desejar que o tempo pare.

Não quero que esse momento passe.
Só preciso que você continue a me olhar e sorrir.
Fique aqui, perto de mim.
Do meu coração.

miúdo

por Gabriel Fogal

quando o dia está cinza
e os relógios estão fora
você não conseguiria ver outra saída?
o descaso de alguns sentimentos
o acaso de alguns pensamentos
você não conhece minha lucidez
diluída e adocicada em ácido
o tempo dura até a lembrança da culpa
mais inocente que o espiar atrás da porta
se eles não voltarem tentarei procurar
aconchego em melodias falecidas
em algumas gerações mais perpetuadas
nos sonhos dos extravagantes
a cortina vai se fechando
as pessoas vão deixando a sala
e logo eles estarão de volta

obsolescer

por David Plassa

Houve um tempo em que eu acreditava nas músicas da minha playlist
Na felicidade dos meus gatos
— Eu até brincava com eles

Naqueles tempos em que eu esperava o dia nascer sem um real no bolso
E até zombava da própria sorte

Tempos em que eu demorava em cada livro
Me apaixonava por suas musas
Anotando trechos por guardanapos

Houve um tempo em que houve um grande amor
um melhor amigo
um pouco de sonho entre tantos delírios

Não faz tanto tempo
Há apenas algumas centenas de ansiolíticos
Meia dúzia de internações

Tentativas de equilíbrio
enquanto explodo de desejos
E o desespero intracelular tensionando a minha existência
Para horas que não passam nem meia hora depois